Adaptações, livros, Textos

Como a gente entendeu Lolita completamente errado.

AVISO: ESSE TEXTO CONTÉM SPOILER

Lolita é sem dúvida nenhuma, o romance mais famoso de Vladimir Nabokov. Ele foi publicado pela primeira vez em 1955 e criou controvérsia desde essa época, ainda nos dias de hoje, se discute sobre esse livro.

Embora o livro leve o nome de Lolita, nós acompanhamos a história de Humbert Humbert, um homem de meia idade que enquanto procura um quarto para alugar, conhece Dolores Haze (que ele apelida de Lolita), uma menina de 12 anos, por quem ele fica completamente obcecado. Humbert resolve então se casar com a mãe de Lolita, a quem ele despreza, para ficar próximo da filha. O impensável acontece quando Charlotte, a mãe de Lolita, morre, deixando literalmente, o caminho livre para Humbert.

O motivo de tamanha controvérsia envolvendo o livro é bem obvio, e até hoje ele é considerado, por muita gente, um livro pornográfico e imoral. O próprio Nabokov chegou a ser hostilizado, porque supostamente Lolita séria autobiográfico.  Aparentemente, nada disso é verdade, mas o autor chegou a dizer que tinha se arrependido de ter escrito o livro e depois mudou de idéia, dizendo que esse foi a sua melhor obra.

O fato é que Lolita já está completamente embrenhada no imaginário popular, desde a sua publicação em 1955, Lolita já ganhou duas adaptações para o cinema, uma em 1962, em um filme dirigido por Stanley Kubrick e depois em 1997, em um filme dirigido por Adrian Lyne, diversas peças, foi tema de diversas músicas e inspirou até outros livros.

Imagem relacionada

O impacto do livro de Nabokov foi tanto que Lolita virou um termo usado para descrever meninas adolescentes sexualmente precoces. Outro termo que aparece no livro e é usado hoje com o mesmo sentido é ninfeta.

Além de tudo isso, os termos Lolita e Ninfeta foram abraçados sem nenhum pudor pela indústria pornográfica, que usa e abusa desse clichê sem nem pensar sobre o que originalmente o livro discute.

Mas sobre o que exatamente o texto original fala? Como eu disse lá em cima, nós lemos o livro em primeira pessoa pelo ponto de vista de Humbert Humbert (ele está escrevendo um diário). Humbert conta que quando jovem se apaixonou por uma menina, que morreu cedo e ele acredita que isso o fez ficar preso em um looping onde ele só sente atração por meninas, além disso, ele conta sobre outras aventuras suas, todas com adolescentes ou com mulheres adultas, que se fingem de adolescentes para  agrada-lo, mas segundo ele, nenhuma se compara a Lolita. Embora essa palavra não seja usada em nenhum momento do livro, está muito claro que Humbert é um pedófilo (ou mais precisamente um hebefilo, já que sente atração por meninas no começo da puberdade).

Humbert descreve Lolita como uma ninfeta sedutora e provocadora, que induziu ele ao sexo de maneira consensual, mas é importante lembrar que no decorrer da história Lolita tem só 12 anos e que Humbert além de ser um pedófilo, que está disposto a justificar todos os seus crimes, também não é um narrador confiável. Também é muito fácil perceber qual dos dois tem mais experiência de vida, mesmo que Lolita conte a Humbert sobre uma possível relação sexual com um menino (da sua idade) no acampamento onde esteve.

Resultado de imagem para lolita

A idéia de que Lolita, uma menina de 12 anos, que acabou de perder a mãe possa ter seduzido Humbert, um homem de meia idade que demonstra claramente um interesse obsessivo por Lolita está tão fixada na nossa mente, que nós tornamos possível usar o nome dela para descrever meninas que são “sexualmente precoces”. A única maneira de uma menina de 12 anos ser sedutora é quando ela é vista pelos olhos de um pedófilo, que é exatamente o que acontece no livro.

Nabokov escreveu um livro que fala sobre abuso infantil e pedofilia, narrado por um predador sexual, mas a escrita de Nabokov é tão incrível e envolvente que todo mundo enquanto lia o livro entendeu que a verdadeira criminosa dessa história toda é Lolita, que seduziu esse “pobre” homem de meia idade. Ela o “provocou” e, portanto ela merece tudo que acontece com ela depois disso.

Loita soa sim, sedutora e provocadora, mas unicamente porque enquanto estamos lendo o livro estamos lendo as palavras, os pensamentos e os desejos de um pedófilo assumido Temos que lembrar que Humbert não só é um homem que sente atração por meninas, mas ele também quer se esquivar dos crimes que cometeu, qual é o modo mais fácil de fazer isso? Jogar a culpa na vitima. Não existe a versão de Lolita no livro que leva seu nome, por isso estamos eternamente presos a versão de Humbert.

E é exatamente essa ramificação que torna Lolita um dos melhores livros da literatura mundial. Você está lendo o livro do ponto de vista do vilão, do homem que assume que sente atração sexual por meninas, do homem que seqüestra sua enteada de 12 anos e a estupra repetidamente por vários anos, mas o texto é tão bem escrito e Humbert é tão convincente que muitas vezes você pode acreditar no que ele diz. Algumas pessoas até acreditam que Lolita narra uma história de amor.

Imagem relacionada

Mesmo que o livro seja narrado do ponto de vista de Humbert, Nabokov nos deixa algumas pistas de que ele não está certo. Não só ele fala abertamente da sua atração por pubescentes, mas no texto ficamos sabendo que logo depois que a mãe de Lolita morre, e Humbert fica responsável por ela, ele ameaça Lolita, dizendo que se algum dia ela o denunciar, ele pode ir parar em um orfanato, mais tarde, quando Lolita já não aceita os abusos de Humbert com tanta facilidade, ele começa a paga-la em troca de favores sexuais, e depois, Humbert descobre que ela guarda esse dinheiro para que possa finalmente fugir dele e quando ele descobre isso, ele pega de volta todo o dinheiro que Lolita juntou, impedindo assim, a sua fuga. Além disso, em vários momentos, Humbert usa palavras como “a aterrorizei”, “A assustei”, “A ameacei” e afins.

No fundo, Lolita é a história de uma criança molestada, presa ao seu algoz, que não tem para onde fugir e é assustador pensar que nós conseguimos transformar isso em uma história sobre uma menina “sedutora e provocativa”, a ponto de criar uma categoria em sites pornográficos voltada para isso. O fato de que enxergamos Lolita como essa criatura quase mitológica, um demônio em um corpo de anjo, que está entre a ingenuidade da menina e a sedução da mulher, só faz um desserviço com todas as vitimas de abusos, que lutam anos para quebrar esse ciclo e muitas vezes são desacreditas e obrigadas a ouvir que provocaram seus abusadores e derivados.

Lolita merecia e deveria ser estudado pelo que ele é: um livro sobre pedofilia. Não uma história de amor, nem uma história erótica e muito menos, um livro sobre uma menina “precoce”, capaz de seduzir um adulto.

Créditos das imagens:

http://www.ifccenter.com/films/lolita/

https://www.cinemagia.ro/actori/dominique-swain-9560/poze/418495/

https://www.nssmag.com/en/art-design/7844/lolita-turns-60

https://movielala.com/movies/lolita/photos/lolita-wallpaper

 

2 comentários em “Como a gente entendeu Lolita completamente errado.”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s