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Quem são os verdadeiros monstros?

 

AVISO: ESSE TEXTO CONTÉM SPOILER

 “E, quase sem querer, em uma espécie de pensamento paralelo, Eddie descobriu uma das grandes verdades de sua infânciaOs adultos são os verdadeiros monstros, pensou ele.”

A Coisa- Stephen King

 

Já dizia Stephen King que nós consumimos conteúdo de terror para podermos lidar com os medos cotidianos, porque quando nós deparamos com situações tão absurdas e sobrenaturais como fantasmas, vampiros, lobisomens e outros monstros, percebemos que os medos que nós temos não são tão assustadores assim, mas o que é mais interessante em um livro de terror não é só a história sobrenatural assustadora, mas também o quanto de aspecto humano ele tem. E é mais interessante ainda quando esses elementos humanos, que supostamente sentem e pensam, são mais assustadores que os monstros.

Eu escolhi dois livros (que já viraram filmes) que usam muito dessa dicotomia, mas eu tenho certeza que existem muito mais: A Coisa, do Stephen King e Deixa Ela Entrar, do John Ajvide Lindqvist.

 

A Coisa

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A Coisa conta a história de sete crianças, que descobrem que existe uma criatura milenar morando nos esgotos da cidade, que se alimenta de crianças, e que tem o poder de se transformar no maior medo de cada um. Embora o monstro de A Coisa esteja mais do que claro, existem outras ameaças na cidade além da Coisa.

Para começar, os protagonistas do livro se identificam como “O Clube dos Perdedores”, justamente porque sofrem bullying na escola, os algozes deles são quatro meninos mais velhos, liderados pelo psicopata Henry Bowers.

Henry vive com o pai, um bêbado que o espanca com freqüência, portanto é natural que ele desconte tudo isso em quem é mais fraco que ele.

O Bullying retratado em A Coisa está bem longe do Bullying que nós vemos em filmes de comédia besteirol americano, claro que Henry e os amigos dão apelidos para cada um dos integrantes do Clube dos Perdedores, mas boa parte das cenas mais pesadas do livro tem a gangue de Bowers como protagonistas.

Em uma das cenas, depois de tentar colar de Ben, e ter o pedido recusado, Bowers e os amigos perseguem Ben pela cidade, até o encurralarem e literalmente, cravarem o começo do nome de Henry na barriga de Ben, com uma navalha. Enquanto isso acontece, alguns adultos observam, mas ninguém faz nada. Ben só se livra disso, porque consegue chutar Henry e escapar rolando pelos Barrens.

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Em outro momento do livro, a gangue de Bowers persegue Eddie, um garoto que é descrito como pequeno e frágil e que é chamado por eles de “viadinho” e “bichinha”. Quando eles conseguem segurar Eddie, os garotos mais velhos quebram o braço dele, o jogam no chão e cospem nele (Eddie é hipocondríaco e tem muito medo de germes). Mais tarde, os mesmos meninos perseguem a única menina do grupo, Beverly, e ela passa o tempo todo da perseguição pensando o que aqueles garotos fariam com ela caso a pegassem sozinha. Não acontece nada com ela, pois logo ela encontra Ben e os dois se escondem, mas a sensação que o leitor tem é a mesma de Bev, até que ponto esses garotos chegariam?

King deixa bem claro que alguns desses garotos podem estar sendo levados por estarem em um grupo, mas alguns deles, como Henry Bowers e Patrick Hockstetter são de fato psicopatas em formação. Henry mata o próprio pai mais tarde e Patrick vem matando pequenos animais a um tempo.

A maldade humana não para nos adolescentes, o pai de Bev, é um homem soturno e estranho. No livro, ele a espanca sem piedade e com freqüência, a menina tem tanto medo dele, que quando encontra com a Coisa pela primeira vez, ela se materializa na forma de sangue, certamente dos machucados que o pai provoca, e quando retorna para Derry já adulta, no seu primeiro encontro com a Coisa, ela vê o próprio pai. No livro, isso nunca fica muito claro, mas existe uma tensão tão grande na relação de Bev com o pai, que dá a entender que o pai a molesta. O filme de 2017, foi mais longe, embora não tenha nenhuma cena (e nem precisa, as cenas em que ele aparecem são de uma aflição e agonia enorme), fica mais do que claro que o pai molesta a filha.

Outra coisa que o filme incluiu e que cai como uma luva com esse pensamento é a cena em que Bev distrai o dono da farmácia para que os meninos consigam sair com alguns produtos sem pagar. A cena é incomoda, porque é claro que o homem, já nos seus 50 anos, está flertando com Bev, uma menina de 12 anos.

Outro personagem que tem um relacionamento familiar estranho é Eddie. Ele vive só com a mãe, uma mulher obesa, hipocondríaca, que acredita e faz ele acreditar que Eddie é frágil e doente. Ela diz que Eddie tem asma, porém mais tarde ele descobre que os remédios que ele toma não passam de placebos e que sua mãe vem inventando todas essas doenças para que ele não saia de perto dela. Embora ele faça essa descoberta, Eddie cresce como o filho que sua mãe criou: hipocondríaco, neurótico e possivelmente um homem gay, que nunca foi capaz de se assumir.

Os pais de Bill, o protagonista do livro, não fazem nenhum mal direto ao filho, mas depois da morte do irmão mais novo de Bill, eles simplesmente não conversam com o filho mais. Bill se sente tão ignorado dentro de casa que em algum momento do livro, ele diz que sentia que o amor dos seus pais por ele estava diretamente ligado ao filho mais novo, a partir do momento que Georgie, o mais novo está morto, Bill deixou de ser amado.

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Uma história secundaria, mas que também mostra a presença de violência por parte dos adultos, é a história de Edward Corcoran. Ele é uma das vitimas da Coisa nos anos 50, ele é pego no parque, porque fugiu do padrasto que o espancava com freqüência, quando A Coisa aparece para ele, ele primeiro escuta a voz do padrasto. Mais tarde, o seu irmão mais novo morre de maneira misteriosa, o padrasto confessa o crime anos depois.

Os adultos da cidade de Derry se dividem basicamente em duas categorias: Os que abusam e maltratam das crianças e os que as ignoram.

Derry é uma cidade onde crianças desaparecem ou aparecem mortas com uma certa freqüência, porém os adultos parecem nunca verem nada. Assim como no caso, das pessoas que vêem Henry cortar a barriga de Ben, os adultos fazem vista grossa e classificam tudo que acontece na cidade como “brincadeira de criança”.

A Coisa, também conhecida como Pennywise, por sua vez, é um predador, que se alimenta de crianças e dos medos dela. Ele é o monstro que dá titulo ao livro e é dele que a audiência tem mais medo. Mas será que ele é a coisa mais assustadora em Derry?

 

Deixa Ela Entrar

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Deixa ela entrar é um livro Sueco publicado recentemente (sua primeira publicação foi em 2004), assim como A Coisa ele já foi adaptado para o cinema duas vezes. Tendo sido escrito nos anos 2000, só posso acreditar que Lindqvist deu alguns goles na fonte de A Coisa.

Deixa Ela Entrar tem como protagonista Oskar, um menino de 12 anos, que mora com a mãe e que sofre bullying na escola. Aqui o Bullying também não é leve: os garotos colocam a cabeça de Oskar na privada, prendem ele no banheiro e só o deixam sair depois que ele imita um porco gritando, e em mais de um momento tentam afoga-lo. Embora o escritor, diferente de King, não deixe claro se os garotos são de fato psicopatas, o grau de maldade nos personagens é inegável.

Oskar se sente muito solitário, até que uma noite ele conhece Eli, no parquinho do seu condomínio. Eli está na neve, usando só um vestido e sem nada nos pés, mas ela parece não sentir frio nenhum. As duas crianças se dão bem e começam a gostar um do outro.

Deixa Ela Entrar poderia ser uma história sobre o primeiro amor, mas Eli guarda alguns segredos: Ela não é uma menina.

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Eli não só não é uma menina no sentido de que ela é não é uma humana, ela também não é uma menina no sentido fisiológico, ela costumava ser um menino.

Eli também é nova no condomínio de Oskar, ela mora com um homem de meia idade, que Oskar acredita ser o pai de Eli, mas nós sabemos que o homem que vive com Eli é um pedófilo que acompanha, “cuida” e mata por Eli, em troca de favores sexuais e que protagoniza algumas das cenas mais pesadas e incomodas do livro.

Na lista de personagens do livro ainda está o homem que vampirizou (e castrou) Eli.

Eli se alimenta de sangue, ela mata (ou pede que matem por ela) para que ela possa comer.

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Quem são os verdadeiros monstros?

Tanto Pennywise, quanto Eli são predadores de humanos, eles se alimentam disso. Pennywise é retratado como o vilão do seu livro, Eli nem tanto, embora ela cause medo nas outras pessoas, Oskar não tem medo dela e entende que ela nunca o machucaria.

Mas o comportamento dos dois pode ser justificado em muitos aspectos: A Coisa não é humana, ela não tem emoções e sentimentos humanos, ela só sente fome. Eli não é mais humana, ela também sente fome, mas ainda tem um pouco de sentimentos humanos dentro dela, tanto que se apaixona por Oskar, mas o que se pode dizer de todos os personagens humanos das duas histórias, que mesmo com emoções conseguem ser tão- ou até mais cruéis- do que os monstros?

Será que A Coisa é realmente pior que uma mãe que inventa doenças para o seu filho, para que ele nunca saia do lado dela ou que um bando de garotos adolescentes que não tem qualquer noção de piedade ou limite? A Coisa é realmente pior que um pai que espanca e possivelmente, molesta a sua filha?

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Eli, a vampira é pior do que o homem que a vampirizou, veja bem, ele não sugou o sangue dela para se alimentar, ele a transformou em uma criatura igual a ele, por mero prazer e a castrou ou pior que um homem que aceita matar em troca de favores sexuais de uma vampira com aparência de 12 anos?

Não se pode esperar completa compaixão e humanidade de um vampiro ou de uma entidade milenar que vive nos esgotos, mas pode-se esperar humanidade dos humanos. Aparentemente, não nesses dois casos, os adultos de Derry, principalmente os pais e mães, que deveriam proteger seus filhos são os verdadeiros algozes das crianças e os adultos de Deixa Ela Entrar também não são nem um pouco confiáveis e pensam primeiramente no seu próprio prazer e bem estar.

A Coisa e Deixe Ela Entrar tem vários elementos em comum, além do terror: Os dois livros tem protagonistas com 12 anos de idade e lidam com bullying, amizade, primeiro amor, escola e desmistificam a idéia de que a infância é um paraíso idílico marcado por momentos maravilhosos e claro, uma criatura que esta acima de uma interpretação racional e que só as crianças, que ainda não tem o pensamento lógico inteiramente completo conseguem entender, mais do que isso, os dois livros usam o terror sobrenatural e as duas criaturas que dão título aos seus respectivos livros,  para falar sobre terrores bem reais, sobre a maldade e sobre o que há de pior no ser humano e nenhum dessas coisas está tão longe de nós.

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E diferente, de uma vampira ou uma criatura milenar que se alimenta de crianças, humanos que abusam, maltratam ou são indiferentes e cruéis não existem apenas na imaginação de seus criadores, nenhuma dessas coisas, poderiam ser mais assustadoras do que bullying, violência, pedofilia, abuso e descaso.

Créditos das imagens:

The 25 Creepiest Moments In the New Trailer For Stephen King’s ‘It’

http://collider.com/it-movie-beverly-marsh/

http://stephenking.wikia.com/wiki/Sonia_Kaspbrak

https://creamerscinemacraze.wordpress.com/2017/09/09/5-best-moments-in-it-that-doesnt-involve-pennywise/

Scandinavian Cinema: ‘Nordic Twilight’ Heats Up Frozen North

http://www.telegraph.co.uk/films/0/best-horror-movies/let-right-one-tomas-alfredson-2008/

https://www.timesofisrael.com/police-vow-uncompromising-crackdown-on-illegal-clown-impersonators/

https://screenrant.com/let-right-one-in-tv-show/

 

 

 

 

 

 

4 comentários em “Quem são os verdadeiros monstros?”

  1. Oi! Excelente artigo! A verdade It A Coisa se tornou em uma das minhas histórias preferidas desde que li o livro, e quando soube que seria adaptado a um filme, fiquei na dúvida se eu a desfrutaria tanto como na versão impressa, mas adorei. O It filme 2017 é uma das histórias de Stephen King que eu mais gostei até agora. Sem dúvida teve uma grande equipe de produção. Você gostou? A história é muito interessante, realmente a recomendo se quiser ver. Já estou esperando a próxima sequência, seguro será um sucesso.

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    1. Oi, Andrea! Fico muito feliz que tenha gostado do texto, é bem diferente do que geralmente publico e é bom saber que as pessoas partilham das minhas opiniões.
      Eu vi o filme, sim e gostei muito! Escrevi até uma resenha sobre isso: https://alemdatocadocoelho.wordpress.com/2017/09/12/filme-it-a-coisa-2017/
      Eu também estava com muito medo de não gostar, afinal, A Coisa é meu livro favorito desde a adolescência, mas eu achei que o filme seguiu o mesmo clima do livro e tenho certeza que o segundo filme vai ser muito bom!

      Curtido por 1 pessoa

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