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A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, Martha Batalha

“Se Eurídice queria casar? Talvez. Para ela o casamento era algo endêmico, algo que acometia homens e mulheres entre os dezoito e vinte e cinco anos. Tipo surto de gripe, só que um pouquinho melhor. O que Eurídice realmente queria era viajar o mundo tocando sua flauta. Queria fazer faculdade e engenharia e manter-se fiel aos números. Queria transformar a quitanda dos pais num armazém de secos e molhados, o armazém de secos e molhados numa empresa distribuidora de grãos, e a empresa num conglomerado. Mas ela não sabia que queria tanto”.

Eurídice e Guida Gusmão são duas irmãs que vivem com os pais no Rio de Janeiro, em plenos anos 40. As duas são completamente diferentes, Guida, a mais velha é despojada, divertida e deseja conhecer o amor da sua vida e se casar, já Eurídice, a mais nova é tímida e retraída e só deseja perseguir uma carreira como flautista.

Uma noite, Guida sai de casa dizendo que vai ao cinema com o namorado e não volta para casa. Eurídice passa a noite esperando a irmã.

A partir desse momento, começamos a acompanhar a vida de Guida, que fugiu com o namorado para se casar e de Eurídice, que é empurrada para um casamento sem amor com Antenor.

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão tem um tema principal: a vida das mulheres nos anos 40. Tudo que acontece no livro se revolve em volta disso. Tanto o destino de Guida, quanto o de Eurídice demonstram isso.

Guida sai de casa achando que vai viver o grande amor de sua vida e que vai ser feliz para sempre, naturalmente que não é isso que acontece e Guida acaba gravida e sozinha, sem poder voltar para casa, enquanto isso, Eurídice, que deseja ser flautista e mais tarde fazer faculdade e que tem uma série de planos para a sua vida, acaba casando com um homem que ela não ama e presa em um casamento que é para dizer o mínimo, sem graça.

As duas representam dois destinos que restavam para as mulheres na época: a esposa e a mãe solteira. O livro também apresenta outros arquétipos onde as mulheres antigamente eram encaixadas, como a solteira e a prostituta. Curiosamente nenhuma dessas mulheres é feliz em seus relacionamentos com homens, sejam ele de qualquer espécie.

Mas naturalmente que, embora o livro acompanhe tanto Guida, quanto Eurídice (e algumas vezes, outros personagens), a protagonista, como o próprio título indica é Eurídice. Não é que a acompanhamos mais, mas entramos mais nos detalhes da vida dela e esse é um dos pontos que mais interessam na história.

Eurídice é retratada como uma mulher brilhante e muito inteligente, ela é uma ótima flautista, tem facilidade com números e pensa em planos grandiosos, mas seus sonhos são sempre barrados pelos homens de sua vida, seja seu pai, seja seu marido. O livro é exatamente sobre isso e sobre como é terrível que uma mulher brilhante como Eurídice tenha passado pelo mundo sem ser notada, como aconteceu com muitas mulheres da sua época.

Outro ponto que empurra o livro para a frente é a relação de Eurídice e Guida, uma vez que as duas passam a trama inteira procurando uma a outra e acreditando na felicidade da irmã. Se as relações das personagens femininas com os homens do livro não são felizes, a relação entre as personagens femininas são todas satisfatórias e bonitas. Isso não acontece só com Guida e Eurídice, mas também com amizades que as irmãs fazem ao longo da vida.

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão também apresenta diversos personagens secundários que são tão interessantes quanto os protagonistas e como o livro muda de ponto de vista, o leitor é colocado dentro da cabeça desses personagens, o que amplia a nossa noção da história. Entre os personagens apresentados estão Zélia, a vizinha de Eurídice, Filomena, amiga de Guida e até Antenor, o marido de Eurídice.

Essa técnica faz com que o leitor simpatize ou pelo menos consiga compreender todos os personagens, uma vez que observamos a história do ponto de vista de cada um deles, podemos até não concordar com muito do que eles fazem, mas conseguimos entender os seus motivos.

A leitura também é muito fácil e rápida, justamente porque o ritmo é muito bom e as tramas muito interessantes. Fica claro o quão a autora é criativa uma vez que ela apresenta diversas histórias, muito diferentes umas das outras.

Também é bom ressaltar que apesar do livro retratar histórias trágicas e tristes, Martha Batalha faz isso de uma maneira bem leve, o livro tem uma ironia, que o torna divertido, mesmo que ele esteja falando de situações terríveis, o que também é um dos pontos altos. O leitor não sai do livro triste ou chocado, mas sim deliciado com a vida de Eurídice e emocionado com suas relações, claro que tudo isso provoca uma reflexão em quem leu o livro, que certamente é a ideia da autora.

Por fim, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão é um livro bonito e emocionante, que usa uma personagem para falar da vida e da condição da mulher e que contem lições que fazem sentido ainda nos dias de hoje.

Título no Brasil: A Vida Invisível de Eurídice Gusmão

Título original: A Vida Invisível de Eurídice Gusmão

Autor: Martha Batalha

Gênero: Drama, comédia

Ano de lançamento: 2016

Editora: Companhia das Letras

Número de Páginas: 192

Foto: Fernanda Cavalcanti

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