Adaptações, filmes

Filme: A Vida Invisível, 2019

Guida (Julia Stockler) e Eurídice (Carol Duarte) são duas irmãs inseparáveis, até o dia em que Guida foge de casa para acompanhar Yogos (Nikolas Antunes), um marinheiro grego.

Eurídice, que ainda espera o retorno da irmã, se casa com Antenor (Gregório Duvivier). As duas irmãs, então, passam a viver vidas separadas, enquanto estão sempre a procura uma da outra.

A Vida Invisível é livremente inspirado no livro A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha e foi o filme escolhido para representar o Brasil no Oscar de 2020, embora não esteja mais na disputa.

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É natural que existam diferenças muito claras entre o livro e o filme. O livro tem um tom mais divertido, embora fale de temas sérios e pesados, e consegue manter sua ironia do começo ao fim. A sensação que se tem quando se lê A Vida Invisível de Eurídice Gusmão é que se está escutando uma história direto da boca de quem a viveu.

Já no filme, a trama ganha tons mais dramáticos e dessa maneira, fica mais alinhada com o tema que a história trata, quase como se o diretor, Karim Aïnouz tivesse escolhido ressaltar os aspectos dramáticos do livro. O filme também é narrado (e datado) pelas cartas que Guida escreve a Eurídice e que a irmã nunca recebe, por isso tem um tom um pouco mais formal, quase como se fosse um épico.

Essa é certamente uma maneira interessante de tratar uma história que é tão comum e ao mesmo tempo tão extraordinária. A Vida Invisível passa por diversos gêneros e flerta com vários deles, desde o dramalhão, passando pela comédia e chegando ao suspense. O telespectador sabe o tempo todo onde as duas irmãs estão, embora uma não saiba do paradeiro da outra e isso se torne um mistério na vida delas.

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A maior força do filme é certamente a relação das irmãs. Guida e Eurídice são retratadas como opostas desde o começo do filme: Guida é mais descolada, mais vaidosa e chama a atenção masculina o tempo todo. Ela não se esconde e aceita cantadas, mesmo que não tenha a intenção de se entregar a elas. O telespectador, portanto, não se surpreende quando Guida sai de casa escondida dos pais, mas encoberta por Eurídice, para encontrar o namorado e nunca mais volta para casa, afinal, Guida é uma mulher destemida, que quer conhecer o amor e o mundo e que não tem medo de decepcionar.

Eurídice, por outro lado, é tímida e retraída, não deseja encontrar o amor, se casar ou ter filhos, ela quer estudar piano na Europa e se esforça para isso. Naturalmente, que a vida acaba a empurrando para um casamento que ela não deseja e que vai lhe trazer mais desgostos do que felicidade. Diferente de Guida, Eurídice se deixa levar pela vida, aceitando o que lhe é entregue e guardando tudo para si mesma.

Tanto Eurídice, quanto Guida são jogadas em vidas que não desejaram e que as deixam infelizes, mas elas se mantêm acreditando que embora a felicidade não venha para si mesma, ela está presente na vida da irmã. As duas irmãs travam as mais diversas relações, com namorados, maridos, amigas e filhos, mas nenhuma ligação parece superar o vínculo fraternal que existe entre as duas.

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Segundo Fernanda Montenegro, que interpreta a versão mais velha de Eurídice em uma participação, A Vida Invisível é um filme uterino, e segundo a autora do livro, essa é a história das nossas avós. A Vida Invisível realmente retrata a vida das mulheres, ele fala de uma época especifica, mas ainda ecoa até hoje.

As mulheres certamente são as protagonistas do filme, e o telespectador acompanha basicamente as suas histórias, ao mesmo tempo que assiste os prazeres e as (muito maiores) dores de ser mulher. Nesse aspecto, a frase “no começo dói, mas depois você acostuma”, que é usada no filme para descrever diversas situações da vida das mulheres, desde a primeira relação sexual, até a amamentação, pode se referir ao contexto todo de ser mulher em uma sociedade patriarcal e machista como a nossa.

Embora o filme nos entregue personagens femininas realistas e com as quais é possível se relacionar e até se reconhecer, as mulheres em A Vida Invisível estão colocadas em nichos muito claros: A mãe solteira, a esposa de alguém, a mãe de alguém e aquela que não pode ser mãe.

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Essas personagens poderiam facilmente cair em estereótipos óbvios e que as reduzissem, se A Vida Invisível não se preocupasse em fazer uma crítica a maneira com que as mulheres eram tratadas na época e em alguns casos, ainda são.

Esses papeis também são, na maioria dos casos, impostos por homens, que no filme, estão sempre empurrando e forçando as mulheres a lugares e situações que elas não desejam. Guida sai de casa para ficar com o namorado, e acaba sozinha e “desgraçada”, enquanto Eurídice é jogada em um casamento que ela não deseja, com um homem que a proíbe de estudar e nenhuma das duas é feliz.

A Vida Invisível é um filme cuidadoso, em todos os seus aspectos. O roteiro é bom e bem desenvolvido, embora não seja completamente fiel ao livro. O que acontece é que o filme usa os personagens e algumas das tramas do livro para desenvolver sua própria história.

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O filme se passa nos anos 50 e por isso, tem uma caracterização da época. O figurino é composto com roupas da época, e não roupas fabricadas para o filme, o que dá um ar de realidade. Outro ponto relevante é que a produção se preocupou em usar cores que normalmente não são associadas aos anos 50, o que tira a ideia de uma década de 50 caricatural. O filme também não é datado, ele é um filme que se passa em uma época, mas que não fala só com aquela época.

A Vida Invisível tem um elenco que dá conta do recado e que passa realidade aos seus personagens, mas como é um filme basicamente feminino, as atuações que mais chamam a atenção são as de Julia Stockler, Carol Duarte e claro, Fernanda Montenegro.

A Vida Invisível é um filme emocionante e bonito, que quer falar sobre a relação de amor entre duas irmãs, mas que ao mesmo tempo, acaba falando sobre o papel e os encargos da mulher na sociedade.

Título no Brasil: A Vida Invisível

Título original: A Vida Invisível

Diretor: Karim Aïnouz

Gênero: Drama, romance

Nacionalidade: Brasil, Alemanha

Ano: 2019

Duração: 2h20

Elenco: Carol Duarte, Julia Stockler, Gregório Duvivier, Barbara Santos, Flávia Gusmão

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