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Madalena – O Último Tabu do Cristianismo, Juan Arias

“Desde então, a mulher atemorizou a igreja oficial e o grande pecado e a grande tentação do clero tem sido a mulher. Um sacerdote ou um clérigo podia ser avarento, glutão, racista, podia enriquecer e viver como um rei: nem por isso seria relegado de suas funções. O que não podia fazer de maneira nenhuma era tocar em uma mulher: a impura, a tentadora”.

Maria Madalena é uma das figuras mais conhecidas da história, seja dentro, seja fora da bíblia, e sua história já foi disseminada pelo mundo todo. No entanto, Juan Arias defende que Maria Madalena não foi a personagem que a igreja tanto condenou.

Segundo o autor desse livro, Maria Madalena era muito mais do uma prostituta arrependida, ela era uma mulher de posses e culta, que não só seguiu Jesus, como também espalhou a palavra dele, com seus próprios meios.

Madalena – O Último Tabu do Cristianismo é um livro interessante, ele apresenta um ponto de vista totalmente novo e diferente sobre uma personagem extremamente importante para a igreja católica. No contexto do cristianismo, Maria Madalena sempre serviu como uma forma de mostrar que até os pecadores, quando arrependidos tem perdão, na bíblia, ela é retrata como uma prostituta, portanto uma pecadora, que se arrepende de tudo que já fez e começa a seguir Jesus.

Se pararmos para analisarmos tudo, o fato dela ser prostituta não seria o suficiente para defini-la como pecadora, pelo menos não na ótica moderna e não religiosa, uma vez que Madalena se mostra uma mulher de caráter na versão que a igreja católica sustenta e que sua profissão, seja ela qual for, não é o suficiente para julgá-la. No entanto, a narrativa em que ela se arrepende de tudo, serve muito bem a mensagem que a igreja desejava passar.

O que Arias, depois de muita pesquisa, sustenta em seu livro é que Madalena não era prostituta, ela era na realidade, uma mulher rica e culta, o que era raro para a época, que escolheu de livre e espontânea vontade seguir Jesus e espalhar sua palavra. Arias também acredita que Madalena continuou pregando a palavra de Jesus depois de sua morte, o que faria dela uma das primeiras pregadoras da igreja católica. O autor também toca em um assunto espinhoso que já veio à tona antes, mas que a igreja continua negando, que é o possível casamento de Madalena com Jesus.

Madalena – O Último Tabu do Cristianismo é um livro contestador em muitos aspectos, ele é claramente um livro anti- cristianismo, o autor tece duras criticas a igreja católica e suas práticas, e mais do que isso, expõe ao mundo a suposta história real que a igreja estaria querendo esconder. É natural que o leitor se pergunte o que a igreja ganha ao esconder qual era a verdadeira identidade de Maria Madalena.

Arias diz que admitindo que Madalena foi tão importante para Jesus e para o cristianismo, a igreja teria que automaticamente admitir a capacidade e a importância das mulheres, o que ela não faz. Seria complicado continuar proibindo mulheres de exercerem o sacerdócio, se o mundo todo descobrisse que um dos primeiros sacerdotes da igreja católica era uma mulher. Portanto o que a igreja não quer, é dar poderes na mão das mulheres, é possível pensar em uma personagem mais poderosa quanto uma mulher, que divulga a palavra de Cristo, que é sua esposa e que é a primeira a receber notícias dele, dos seus lábios, depois de sua morte?

Os argumentos de Arias têm algum sentido. Ele diz que existem muitos nomes repetidos na bíblia, e uma quantidade enorme de mulheres chamadas Maria (pensando rapidamente conseguimos lembrar logo de cara de duas: Nossa Senhora e Maria Madalena), o que poderia facilmente levar a uma confusão, nesse caso, não proposital, de quem era quem na história. Ele também aventa a possibilidade de que essas mudanças tenham sido feitas de proposito, para que Madalena se tornasse essa figura que conhecemos hoje.

Ele também diz que diversos trechos da bíblia dão a entender que existia alguma relação de ciúmes entre Madalena, que seria a seguidora preferida de Jesus e outros apóstolos, também é curioso que diante dos 12 apóstolos, Jesus tenha escolhido aparecer, depois de sua morte, para ninguém mais, ninguém menos, que Maria Madalena.

O livro de Arias é interessante justamente porque faz sentido, existe um medo palpável da mulher de uma maneira geral na sociedade, mas também na igreja católica, é por isso, que as mulheres são constantemente diminuídas, violentadas e caladas. A igreja católica tenta a todo custo colocar a mulher abaixo do homem na sua hierarquia, as mulheres que decidem seguir a vida religiosa, podem passar o resto da vida estudando e se esforçando, mas vão continuar sendo freiras, nunca serão padres, que dirá, bispos ou papas.

Também é mais do que obvio a tentativa que existe na bíblia de demonizar a mulher, começando por Lilith, a primeira mulher criada por Deus, que foi expulsa do paraíso por não obedecer a Adão e depois, por Eva, que caiu em tentação e trouxe o mal ao mundo. Para a igreja católica, as mulheres são inferiores, pecadoras e na maioria das vezes, o motivo das desgraças dos homens.

Seria natural então, que a igreja quisesse sumir com a ideia de uma mulher que foi tão importante não só na vida, como também na missão de Jesus, mas segundo Arias, eles fizeram mais, eles quiseram difamar Madalena. Primeiro é importante deixar claro que ser prostituta não faz de ninguém uma pecadora, e que mesmo que Maria Madalena tivesse sido ou tenha sido uma prostituta, isso não a impediria de também ser uma sacerdote ou sequer esposa de Jesus, como muitos atestam.

Mas para a perspectiva católica, onde quase tudo é pecado, ser uma prostituta é um pecado mortal, por isso seria a profissão ideal para essa mulher que tanto assusta a igreja e que tem potencial para destruir o cristianismo como conhecemos. A personagem que a igreja cria para Maria Madalena é perfeita para passar uma lição, advertir mulheres sobre os perigos de exercer sua própria sexualidade e ainda enaltecer a figura de Jesus, que perdoa essa mulher pecadora, a salva da morte iminente e ainda a transforma em uma devota.

Arias afirma que a própria Madalena escreveu um evangelho, que dava mais voz as mulheres e que ressaltava os feitos de outras mulheres que acompanhavam Jesus, e da quais nunca ouvimos falar, mas que naturalmente, a igreja sumiu com esse evangelho e que a investigação mais a fundo da vida de Madalena, poderia causar uma revolução na igreja católica.

Tudo que ele fala é muito factível, principalmente para quem tenho olhos críticos em relação as práticas da igreja católica, e sabe que dos problemas que existem dentro dessa instituição, o machismo é só uma pequena parcela. É importante ressaltar, no entanto, que Madalena – O Último Tabu do Cristianismo não é um livro anti- Cristo ou anti-Deus, ele apenas deixa muito claro o seu posicionamento em relação a igreja católica como instituição.

As pessoas que não são religiosas e que não acreditam nos preceitos da igreja, ou de Cristo ou que sequer acreditam em Deus ou em Cristo, podem achar que o livro é tedioso ou sem graça, mas não é verdade. O livro funciona muito bem mesmo que você não acredite em nada disso, é interessante pensar que Arias descreve fatos históricos, mas também é interessante ler como uma crítica a maneira que a igreja se comporta. Mesmo que você não ache que Jesus ou Maria Madalena existiram, o livro fala sobre manipulação e sobre uma instituição que está disposta a passar por cima de tudo, inclusive a palavra de seu proclamado salvador, para manter as coisas com eles desejam e da forma como eles desejam.

O livro também é uma boa pedida para quem se interessa por estudar a sociedade patriarcal, da qual a igreja é uma das grandes representantes, Maria Madalena mesmo se pensada como uma personagem ficcional, seria uma mulher extremamente forte e poderosa, capaz de abalar estruturas que parecem fincadas no concreto. É interessante analisar o quanto a igreja foi capaz de fazer para diminuir o papel das mulheres dentro da instituição, se a teoria de Arias estiver correta.

O tema de Arias é interessante e ele escreve bem e de maneira não muito complicada, mesmo que traga muitos nomes, muitos lugares e muitas datas, por isso, a leitura é prazerosa e relativamente rápida. O livro se torna repetido algumas vezes, já que ele tem um assunto e muitos argumentos, mas que acaba voltando a esses mesmos tópicos em capítulos diferentes, quase como se quisesse dar mais uma enroladinha, mas não vejo isso como um problema, já que o tema dele é muito interessante e que sua pesquisa é claramente cuidadosa.

Madalena – O Último Tabu do Cristianismo é um livro que deve ser lido não como um livro sobre religião, mas um livro sobre machismo e sobre tudo que as pessoas são capazes de fazer para manter o poder nas suas mãos.

Título no Brasil: Madalena – O Último Tabu do Cristianismo

Título original: La Magdalena. El último tabú del Cristianismo

Autor: Juan Arias

Gênero: História, religião

Ano de lançamento: 2005

Editora: Objetiva

Número de Páginas: 208

Foto: Fernanda Cavalcanti

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