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Emma, Jane Austen

“Não se preocupe, Harriet, jamais serei uma velha solteirona pobre. E é a pobreza que torna o celibato desprezível para muita gente! Uma mulher solteira com uma renda ínfima, é uma ridícula e desagradável solteirona, motivo de riso para os rapazes e moças. Uma mulher solteira de fortuna, no entanto, sempre será respeitável, e pode ser tão agradável e sensível quanto qualquer pessoa. “

Emma Woodhouse é uma jovem de 21 anos, que é descrita logo nas primeiras linhas do livro como “bonita, inteligente e rica”, o que quer dizer que Emma não precisa de um marido.

Ela mesma declara para todo mundo que não pretende se casar e que suas únicas ambições na vida são cuidar do pai e arrumar casamentos para as suas amigas. Quando ela fica muito próxima de Harriet, uma jovem que não tem as mesmas condições que ela, Emma convence a amiga que um rapaz de posses é uma ótima opção de casamento, até que o próprio rapaz deixa claro que não está interessado em Harriet e sim, em Emma.

A partir desse momento, Emma começa a repensar sua vida e em como suas ideias influenciam a vida das pessoas ao seu redor.

A própria Jane Austen disse que Emma era uma personagem que só ela mesma gostaria, isso porque ela é muito diferente das outras personagens da autora e de uma certa maneira, bem diferente das mulheres da época. Emma é rica e não precisa de um marido para garantir o seu futuro, mas mais que isso, ela parece não ter qualquer interesse em se casar, ela é uma jovem quase independente.

Se as outras protagonistas de Austen também são independentes, elas também são humildes, mas esse não é o caso de Emma. Emma sabe que é jovem, bonita e inteligente, e sendo a filha temporã de um homem rico, ela também é extremamente mimada.

A diversão de Emma é arrumar maridos para as suas amigas, e ela acredita que é boa nisso e como é muito confiante em todas as suas habilidades, Emma tem certeza que está fazendo a coisa certa. Em muitos sentidos, Austen tem razão, se Emma fosse uma pessoa real, seria bem difícil gostar dela, mas não é isso que acontece quando se lê o livro.

É verdade que Emma é impulsiva, mimada e que em alguns momentos, ela de fato ultrapassa os limites e magoa as pessoas, mas ela também é inteligente, independente e o leitor percebe rapidamente que ela não faz nada com a intenção de prejudicar ninguém ou sequer em benefício próprio.

Quando ela diz para a sua amiga Harriet recusar a primeira proposta de casamento que recebe e investir em algum rapaz de uma classe social mais alta, é porque ela de fato acredita que Harriet mereça coisa melhor do que o primeiro rapaz. O julgamento é precipitado e um pouco preconceituoso? Sim, mas logo Emma é cobrada por essa decisão.

Quando ela percebe que Mr. Elton, o rapaz que ela convenceu Harriet a gostar e que ela acreditava estar cortejando a amiga, estava na realidade cortejando a própria Emma, ela começa a pensar melhor no que ela faz e em como, muitas vezes, na tentativa de ajudar, ela acaba atrapalhando.

Emma também é um livro sobre uma personagem que está crescendo e que embora comece cheia de si, vai aprendendo com os problemas que são colocados no seu caminho.

A trama de Emma não é especialmente complexa, é mais uma série de encontros e desencontros amorosos que poderia facilmente ser o roteiro de uma comédia adolescente – o que de fato já aconteceu, já que o livro inspirou o roteiro de As Patricinhas de Beverly Hills – mas o texto de Austen é cheio de ironia e ela consegue passar a personagem de Emma, assim como a sua mudança, de uma forma clara e muito bem-feita para o leitor.

Os personagens coadjuvantes também são interessantes e em muitos momentos, mais fáceis de gostar do que a protagonista. Harriet é uma mocinha que não tem muitas condições, e que é facilmente convencida por Emma, mas é fácil torcer para que as coisas deem certo para ela, já Mr. Knightley, o concunhado de Emma, parece ser a única pessoa no livro que discorda e discute com Emma, em diversos momentos do livro, ele é a voz da razão, que mostra a protagonista onde ela vem errando, mesmo que não o faça da maneira mais generosa possível, mas ainda assim gostamos dele.

Também torcemos por Emma durante a leitura, mesmo com os seus erros e os seus deslizes, afinal, isso faz dela uma personagem extremamente humana. O livro retrata questões que qualquer pessoa poderia viver, certamente não nos mesmos moldes que Emma, como confusões românticas, decepções e paixonites, então não é difícil se identificar e compreender Emma.

Outra questão importante do livro é justamente a independência de Emma. Austen geralmente escreve protagonistas que são inteligentes, independentes e bem distantes da ideia que se fazia das mulheres na época, o que por si só, já é importante, Emma no entanto, parece um salto a mais. Ela não deseja se casar ou ter filhos, ela sabe que é inteligente e que é rica o suficiente para, mesmo se mantendo solteira, ainda ser respeitada em uma sociedade que acreditava que uma mulher só era alguém quando casada.

Levando em conta que ainda vivemos em um mundo onde algumas mulheres acreditam que o casamento é a solução para todos os problemas ou é o caminho natural na vida de uma mulher e onde tantas outras que não querem se casar não são levadas a sério quando dizem isso, é muito moderno e muito poderoso que uma personagem como Emma, escrita em 1815, fale com todas as letras que não pretende se casar e não tenha planos de depender de um homem.

A leitura de Emma também é prazerosa, é mais ou menos como ler uma comédia romântica, com muito mais requinte. Austen escreve bem e a história prende o leitor rapidamente, no entanto, pode ser que alguns leitores, não tão acostumados com clássicos, possam achar o livro parado.

Emma narra a história de uma personagem bem escrita, que não é perfeita, e que justamente por isso, é interessante.

Título no Brasil: Emma

Título Original: Emma

Autora: Jane Austen

Tradutora: Adriana Sales Zardini

Gênero: Romance

Ano de lançamento: 1815

Editora: Martin Claret

Número de Páginas: 536

Foto: Fernanda Cavalcanti

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