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Livros de Sangue I, Clive Barker

“Yes, you like to call us by our second names, don’t you? That’s more manly isn’t? That means we’re not children, that means we’re men. Kevin isn’t quite a man trough you see sir. He’s never wanted to be a man. In fact, i think he hated the idea. You know why? He thought once you were a man, you started to die and Kevin used to say he’d never die” – IV- Pig Blood Blues

“Sim, você gosta de nos chamar pelos nossos sobrenomes, não gosta? Assim é mais adulto, não é? Isso quer dizer que nós não somos crianças, isso quer dizer que nós somos homens. Kevin não é bem um homem o senhor vê. Ele nunca quis ser um homem. Na verdade, eu acho que ele odeia a ideia. Você sabe por que? Ele achava que a partir do momento que você se torna um homem, você começa a morrer e Kevin costumava dizer que nunca ia morrer” – IV- Blues do Sangue de Porco

Traduzido livremente por Fernanda Cavalcanti

Livros de Sangue I é o primeiro volume da série Livros de Sangue de Clive Barker. O livro é uma reunião de seis contos de Barker.

Livros de Sangue – do volume I ao VI – são provavelmente algumas das obras mais famosas de Barker, a ideia por trás dos livros é apresentar uma série de contos do autor, que não são necessariamente conectados, mas que seguem uma lógica. Os contos de Barker que fazem parte de Livros de Sangue I tem algumas coisas em comum, como o tamanho dos contos, todos eles são bem grandes e estão bem no limiar entre o conto e a novela, e todos eles são contos de terror e mais especificamente, terror gore, com cenas bem pesadas e com bastante cenas de sexo.

O primeiro conto de Livros de Sangue I, o Livro de sangue é o conto que serve como espinha dorsal para todo o projeto de Barker. Nesse conto um médium charlatão é chamado para investigar uma casa suspostamente assombrada, ele começa a fingir que está vendo fantasmas, mas os fantasmas de fato aparecem. Já em O trem de carne da meia-noite, Leon Kaufman dorme no metrô de Nova York e perde a estação onde deveria descer, quando ele acorda se depara com uma série de corpos nus e completamente sem pelos pendurados no vagão e logicamente, conecta isso com um assassino que vem atacando pessoas no metrô. Esse conto toma caminhos assustadores, bizarros e inimagináveis.

O Yattering e Jack fala sobre um homem, Jack, que é assombrado por um demônio, que tem como função cobrar um pacto que um dos antepassados de Jack não cumpriu. O demônio submete Jack a situações terríveis, mas o homem permanece firme e forte e tenta a todo custo, manter uma boa relação com o demônio. O Yattering e Jack é o conto mais leve do livro, ele tem cenas pesadas, mas é ligeiramente irônico e divertido.

Blues do sangue de porco, o quarto conto do livro, tem como protagonista um homem que trabalha em um centro correcional de meninos. Ele procura um dos meninos, que desapareceu sem deixar vestígios e escuta a história de um outro que jura que o menino desaparecido não só está morto, como também assombra o lugar.

Sexo, morte e luz das estrelas é um conto que parte de um lugar mais comum, mas que não é normalmente abordado em histórias do gênero. O diretor de teatro Terry Calloway está prestes a estrear uma peça, mas ele se vê de frente a dois problemas: está dormindo com Diane Duvall, a atriz principal da peça, que também é uma péssima atriz e não está agradando os produtores. Quando um deles se apresenta e determina que quem vai interpretar o papel na realidade, é a sua esposa, as coisas começam a sair do controle.

O último conto do livro é Nas colinas, as cidades, que acompanha o casal gay Mick e Judd, que está passando as férias na Iugoslávia, quando se depara com um perigo antigo e perigoso, que pode acabar afetando a vida dos dois.

Pelas sinopses dos contos já é possível notar que eles são pesados e tem imagens bem assustadoras e fortes. O terror de Barker é muito baseado no elemento gore, então, as descrições incluem muito sangue, mutilação e violência. Isso pode deixar muita gente aflita, mas parece logico que só quem gosta do gênero do terror, vá ler Livros de Sangue I, no entanto, talvez até para quem gosta do gênero, mas tem uma tendência a se interessar mais por terror psicológico ou por um terror mais leve, Livros de Sangue I pode ser uma obra meio pesada.

A violência e o gore podem facilmente se tornarem gratuitos, mas não é o que acontece nesse livro, primeiro porque isso faz parte do estilo de Barker e segundo porque toda a violência tem algum sentido dentro das tramas que ele apresenta e de todo o corpo do livro.

Uma coisa que chama a atenção nos contos desse livro é que eles exploram temas, situações e personagens que não são comuns em trabalhos do gênero. Livros de Sangue I traz contos que falam sobre aspectos comuns em contos de terror, como assombrações e assassinatos, mas também traz contos que geralmente não estão ligados ao terror, como Sexo, morte e luz das estrelas, que fala sobre uma companhia teatral ou Nas colinas, as cidades, que acompanha uma viagem romântica. É interessante como Barker adiciona elementos de terror e do sobrenatural a esses cenários que parecem não se encaixar no gênero.

Os personagens de Barker também fogem dos clichês, ele não apresenta nenhum escritor de terror, por exemplo, um personagem extremamente comum em obras do gênero e nem personagens que já encaram traumas ou que se envolverem em eventos estranhos e misteriosos no passado. Os personagens de Livro de Sangue I são bem realistas e o leitor acredita neles.

O autor, que é abertamente homossexual, também traz essa questão para as suas histórias. Não só um dos contos é protagonizado por um casal gay – que poderia facilmente ser um casal heterossexual, já que a sexualidade dos personagens não é relevante na trama do conto – mas no conto O Yattering e Jack, o narrador comenta rapidamente que a filha do protagonista é homossexual e que seu pai aceitou isso sem nenhum problema.

Outro ponto muito comum nas obras de Barker e que também está presente em Livros de Sangue I é o sexo. Os contos têm muitas cenas de sexo, que são bem explicitas e de alguma maneira a violência das tramas é relacionada com todo o aspecto sexual. No segundo conto do livro, O trem de carne da meia-noite, as descrições dos corpos mortos e pendurados no vagão são descrições quase sexuais, embora o autor esteja falando de pessoas mortas. A impressão que se tem é que Barker quer falar de coisas primarias e quase animais, seja a morte, seja o sexo.

Um grande diferencial de Livros de Sangue I para outros livros de contos é que ele foi pensado, pelo próprio autor, para ser dessa maneira, com uma certa lógica, que perpassa todos os contos do livro. Isso deixa o leitor preso no livro, quase como se ele fosse um romance. Naturalmente que em se tratando de um livro de contos, pode-se gostar mais de um ou de outro conto, mas os contos de Livros de Sangue I, parecem estar interligads de alguma maneira.

Livros de Sangue I é um livro indispensável para os fãs de terror, mas mesmo entre essas pessoas, é um livro pesado, com contos difíceis de digerir.

A leitura também é um pouco complicada, a escrita de Barker é confusa em alguns momentos, e como os contos são grandes, às vezes, se você não está muito investido na trama, a leitura pode se tornar cansativa. É interessante, no entanto, que Barker, tenha dividido sua obra em seis livros, porque os temas que ele trata são pesados e talvez seja um pouco perturbador ler todos os contos de uma vez só.

Infelizmente, Livros de Sangue I – ou qualquer um dos volumes – não é publicado no Brasil a um tempo, o que restringe sua leitura a livros de sebo, que algumas vezes saem muito caro, ou a edições em inglês.

Livros de Sangue I é um clássico moderno e que traz contos de terror diferentes e que passam bem longe da maioria dos trabalhos do gênero, no entanto, ele ainda pode não ser do agrado de alguns fãs de terror.

Título no Brasil: Livros de Sangue I

Título original: Books of Blood – Volume I

Autor: Clive Barker

Gênero: Contos, Terror

Ano de lançamento: 1984

Editora: Civilização Brasileira

Número de Páginas: 234

6 comentários em “Livros de Sangue I, Clive Barker”

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