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Território Lovecraft, Matt Ruff

“Mas histórias são como pessoas, Atticus. Nós até podemos ama-las, mas não podemos alegar que são perfeitas. Sempre tentamos enaltecer suas virtudes e relevar seus defeitos, mas isso não faz os defeitos desaparecerem” – Território Lovecraft

Ambientado Nos Estados Unidos segregados da década de 1950, Território Lovecraft acompanha um grupo de pessoas, que enfrenta uma seita racista, ao mesmo tempo que se vê frente a frente com elementos sobrenaturais.

É um pouco complicado explicar a sinopse de Território Lovecraft, isso porque embora o livro seja um romance, ele também é uma coletânea de contos. O que acontece aqui é que todos os personagens – ou a maioria deles – aparecem em todos os contos, e todas as tramas se passam no mesmo universo, na mesma época e tem o mesmo antagonista, mas os capítulos são divididos como contos.

O livro é composto por oitos contos e um epílogo e cada um deles é focado em um personagem. O primeiro, que dá título ao livro, acompanha o, aparente, protagonista da história, Atticus, que volta da guerra da coreia e descobre que seu pai foi sequestrado. Quando ele sai em busca do pai, encontra um culto, que está interessado no próprio Atticus.

Já o segundo, A Casa Assombrada dos Sonhos, conta a história de Letitia, amiga de infância de Atticus, que ganha uma herança e resolve comprar uma casa enorme em um bairro predominantemente branco, mas que logo descobre, que além dos terrores reais que ela está prestes enfrentar, o lugar também é assombrado.

O Livro de Abdullah, o terceiro conto, acompanha esses mesmos personagens, enquanto eles tentam resgatar o livro – razão, que é um livro com um relato dos anos de escravidão de uma pessoa e que também determina quanto essa pessoa deve receber como indenização, da bisavó daquela família, que foi roubado.

O quarto conto, Hippolyta Perturba o Universo, acompanha Hippolyta, a tia de Atticus, em uma aventura intergaláctica. Em Jekyll em Hyde Park, Ruby, a irmã de Letitia, tem a chance de se tornar uma mulher branca por um tempo. A Casa Narrow, o conto seguinte, acompanha Atticus e seu tio Montrose, enquanto eles procuram uma pessoa que é extremamente importante para a solução dos problemas dos dois.

Já Horace e o Boneco do Diabo, o primo de Atticus, Horace, começa a sentir uma presença estranha que está sempre atrás dele. O último conto, A Marca de Caim, é a resolução de todas as questões que foram abertas durante o livro.

Os contos se relacionam entre si, porque os mesmos personagens aparecem em todos eles e porque eles estão organizados na ordem em que as histórias se passam, então, é como ler um romance, mas enquanto estamos lendo um conto – ou capítulo – aquela história é focada só em uma pessoa.

Uma vez que o livro chama Território Lovecraft parece óbvio qual é a referência por trás das histórias e de fato, aspectos da mitologia de Lovecraft estão presentes em boa parte dos contos, mas ele não é o único autor que é homenageado. O conto Jekyll em Hyde Park é uma alusão ao Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson e outros autores de ficção cientifica e terror são citados durante o livro.

Isso porque Atticus, o personagem principal do livro, é um grande fã de literatura, gosta de boa parte desses autores e fala deles com frequência.

Outra questão que é muito importante em Território Lovecraft é que todos os personagens principais são negros. Isso é relevante porque H. P. Lovecraft era racista e essas ideias estão presentes em alguns dos seus contos. Lovecraft não é o único autor de ficção cientifica e terror que é considerado racista e no livro, Atticus se pergunta se é certo passar por cima dessas questões, sendo ele um homem negro e embora ele receba apoio do seu tio, que também gosta de literatura, é criticado pelo pai, que acha que por mais que algo seja bem escrito, não se deve relevar a postura de seus autores e muito menos quando essa postura está presente nas obras desses autores.

Esse é, aliais, o motivo pelo qual o autor, Matt Ruff, resolveu escrever Território Lovecraft. Segundo ele, a ideia surgiu depois de ver uma palestra de uma mulher negra, fã de ficção cientifica, que como Atticus, se questionava se ela deveria gostar daqueles autores e no que isso implicava.

A ideia de Ruff é muito boa mesmo, é como se ele finalmente colocasse protagonismo negro – embora o autor seja branco – em tramas de Lovecraft e mais ainda, em tramas de terror, suspense e ficção cientifica, já que isso é raríssimo. Além dos protagonistas negros, o livro debate questões que dizem respeito aos negros.

Então, embora esses personagens encontrem questões sobrenaturais, eles também encontram situações muito reais, como a segregação, a perseguição policial, o racismo, a Ku Klux Klan, a escravidão e a violência. Esses problemas, dentro do livro, são muito mais perigosos, violentos e absurdos, do que as questões sobrenaturais, o que conecta todas as histórias de Território Lovecraft com o mundo real.

Essa ideia de usar o terror e os elementos sobrenaturais para falar de terrores reais é bem comum em livros de terror, e aqui isso nem é tão demarcado. As questões reais se sobressaem as questões sobrenaturais e por mais que seja muito importante falar sobre as questões que Território Lovecraft trata seria interessante se tivesse mais questões sobrenaturais, já que esse é um dos principais motivos pelos quais as pessoas chegam no livro – afinal, ele tem o nome de um famoso escritor de terror no seu título – e também porque é muito mais interessante entender questões do mundo real, através de fantasia.

Território Lovecraft é um livro assustador porque apresenta questões reais terríveis e pelas quais ainda estamos lutando, mas não é assustador no sentido do terror mais clássico e talvez isso decepcione o leitor que chega esperando algo no gênero do terror.

Outra questão é que o livro soa um pouco roteirizado, como se ele tivesse sido escrito em uma linguagem quase cinematográfica. Os personagens não são muito profundos, talvez porque em contos, isso é um pouco comum, talvez porque em livros de terror, a tendência é focar bem mais nas ações do que nos personagens, mas uma vez que a ideia aqui é falar de racismo e de outras questões sociais, o ideal seria que esses personagens fossem profundos e realistas.

Não é que Território Lovecraft seja um livro ruim, a ideia é muito boa e o livro é bem envolvente e prende o leitor, a questão é que o livro promete bem mais do que ele entrega.

Como boa parte dos livros de contos, Território Lovecraft tem contos melhores e piores e isso varia de acordo com o gosto de cada leitor, no entanto, de uma maneira geral, a leitura é rápida e instigante, o que prende o leitor.

A edição da Intrínseca é bem cuidadosa, com capa dura, corte azul, e uma ilustração bonita e que remete diretamente a história.

Território Lovecraft parte de uma boa ideia e tem ótimas intenções, mas se vende como um livro de terror dos mais clássicos e decepciona um pouco quando foca quase todo o seu tempo em terrores sociais.

Título no Brasil: Território Lovecraft

Título original: Lovecraft Country

Autor: Matt Ruff

Tradução: Thais Paiva

Gênero: Terror, Fantasia, Drama

Ano de lançamento: 2016

Editora: Intrínseca

Número de Páginas: 352

Foto: Fernanda Cavalcanti

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