Crime real, livros

JonBenet: Inside the Ramsey Murder Investigation, Steve Thomas e Don Davis

“Evils that befall the world are not nearly so often caused by bad men as they are by good men who are silente when a opinion must be voiced”

“O mal que assola o mundo não é culpa só dos homens maus, mas também dos homens bons que se calam quando uma opinião deve ser dita”

JonBenét Ramsey era uma mini-miss americana, que vinha ganhando cada vez mais fama dentro dos concursos de beleza infantis. Ela era filha de um casal rico e vivia em uma casa grande e luxuosa em Boulder, uma pequena cidade americana.

Até que na manhã de 26 de dezembro de 1996, a mãe de JonBenét, Patsy, ligou para a emergência dizendo que sua filha tinha sumido de casa e que ela tinha encontrado um bilhete pedindo um resgate. Deduziu-se que a menina tinha sido sequestrada.

A polícia chegou a casa dos Ramsey com a certeza de que aquele tratava-se de um caso de sequestro e a partir daí se deparou com uma série de situações estranhas. Os pais da criança mal ficavam juntos, o irmão mais velho de JonBenét, de nove anos, foi mantido no quarto dele, dormindo, e vários amigos do casal, começaram a chegar e entrar na casa, que àquela altura era a cena de crime de sequestro.

Sozinho e sem saber o que fazer, o policial responsável pelo caso, mal conseguia controlar as pessoas que estavam na casa e em vários momentos perdeu John Ramsey, o pai de JonBenét, de vista. Na tentativa de distrair o homem, o policial pediu que ele, junto de um amigo, fizesse uma revista na casa em busca de pistas.

Os dois homens foram direto para o porão e logo voltaram para a sala carregando o corpo da menina, que já estava morta. O caso deixou de ser um sequestro e virou um homicídio.

A morte de JonBenét rapidamente virou notícia no mundo todo. O caso tinha todos os requisitos para chamar a atenção: a vítima era uma menina bonita de seis anos de idade, popular no mundo dos concursos de beleza, filha de um homem rico, que tinha sido, aparentemente, morta dentro da sua própria casa, na noite de natal.

A investigação do caso, então, se mostrou complicada e problemática, e passou pelas mãos de uma série de detetives, até que chegou na mão de Steve Thomas, o autor desse livro, que mergulhou de cabeça na investigação a ponto de esquecer da sua própria vida.

Em JonBenet: Inside the Ramsey Murder Investigation, Thomas nos conta sobre o crime, a investigação e tudo que deu errado no meio do caminho para transformar o caso de JonBenet em um dos maiores mistérios da história americana e tenta explicar porque mesmo depois de vinte e quatro anos, ainda não existe nenhuma resposta.

É impossível falar sobre o livro sem falar sobre a vida de JonBenet Ramsey. JonBenet, nascida em agosto de 1990, era a filha mais nova de John e Patsy Ramsey, o casal tinha mais um filho, Burke, que na época do crime, tinha nove anos. JoBenet também tinha mais três meios-irmãos por parte de pai, John Andrew, Melinda e Elizabeth (que tinha falecido em um acidente de carro, em 1992), que em 96, quando o crime aconteceu, já contavam com mais de vinte anos.

A família, aparentemente, se dava bem e tanto a atual mulher de John, quanto a ex costumavam frequentar os mesmos lugares e as mesmas festas. John era um empresário que tinha ficado muito rico nos últimos anos, por isso, o casal vivia uma vida luxuosa e morava em uma mansão antiga que tinha sido reformada ao gosto de Patsy. A casa dos Ramseys tinha três andares, tinha um porão, com diversos compartimentos, quartos com suítes para JonBenét e Burke e uma suíte presidencial para John e Patsy.

Os Ramseys pareciam ser a típica família americana e tudo na vida deles era perfeito. JonBenét participava de concursos de mini-miss desde os quatro anos de idade e tinha bastante sucesso, Patsy também tinha vencido alguns concursos quando mais nova, mas nunca tinha tido tanto sucesso quanto a filha. Os frequentadores e participantes de concursos sabiam que o futuro de JonBenét era promissor e que sua mãe esperava que um dia ela se tornasse miss americana.

Todos esses sonhos foram barrados na manhã de 26 de dezembro de 1996, quando Patsy, ainda sonolenta, alega ter encontrado um bilhete de resgate que garantia que JonBenét estava na posse de um grupo de criminosos. O bilhete de resgate é uma das questões mais estranhas que cercam o caso de JonBenét: ele tem mais de três páginas, não menciona o nome da vítima nenhuma vez, pede a exata quantia que John tinha recebido de bônus de natal e foi escrito com papel e caneta de dentro da casa dos Ramseys.

O caso, que inicialmente, era um sequestro, vira um homicídio, quando John encontra o corpo de sua filha em um dos cômodos do porão. JonBenét tinha uma ligadura no pescoço, os braços acima da cabeça e amarrados com uma corda frouxa e uma fita crepe sob a boca. John sobe do porão com o corpo da menina no colo, retira a fita e coloca ela embaixo da árvore de nata, quase como em um presépio macabro, e Patsy se reclina sobre a menina e chora. O problema da investigação começa aí, uma vez que boa parte das evidencias são automaticamente danificadas.

Quando Thomas entra no caso, a investigação já está encaminhada, no entanto, o caso só mostra problemas. A cena do crime nunca foi isolada e uma série de pessoas passou pelo local, enquanto ainda se acredita se tratar de um sequestro, a família tirou itens da casa depois que o corpo havia sido encontrado, os Ramseys se recusaram a serem entrevistados pela polícia, não cederam as roupas que estavam usando no dia e segundo, Thomas dificultaram muito a investigação.

O que o autor tece no livro é muito mais do que a investigação do caso. Ele de fato nos dá uma série de provas, que soam legitimas e que vão fazer o leitor interessado, sentir vontade de investigar com ele, mas ele também retrata uma policial que não estava muito disposta a fazer o seu trabalho e que mesmo diante de evidências, destacava opiniões pessoais e uma família que não parecia nem um pouco disposta a colaborar com a investigação do assassinato de sua própria filha.

Existem milhares de teorias sobre quem é o assassino de JonBenét, suas motivações e o que aconteceu naquela noite, as duas teorias mais populares – e talvez, mais fortes – são as de que o culpado é um intruso, que teria invadido a casa e levado a menina para o porão e a de que os pais ou um dos pais- ou mesmo, Burke – , por acidente, mataram a menina e simularam uma cena de crime e um bilhete de resgate.

Thomas, o autor do livro, tem uma opinião muito clara e ele não esconde isso em nenhum momento. Para ele, Patsy é a assassina de JonBenét e essa é uma informação que se deve ter em mente quando se lê JonBenet: Inside the Ramsey Murder Investigation. O autor nos apresenta uma série de provas, que cabem de maneira certeira na teoria dele, entre os indícios que Thomas traz à tona estão, por exemplo, o fato de que seria impossível alguém ter entrado na casa, que os Ramseys não aceitaram colaborar com a polícia em momento nenhum e que sempre se colocaram como inimigos da polícia, que o bilhete de resgate, além de extremamente estranho, tinha sido escrito em um papel que estava na casa, com uma caneta que estava na casa e que a letra do bilhete, era muito parecida com a de Patsy, entre outros.

É muito fácil acreditar nas provas que Thomas nos dá, ele participou da investigação e parece ter informações privilegiadas sobre o caso, a sua maneira de escrever também soa muito sincera, mas também é possível que ele tenha editado os fatos a sua maneira. Algumas das coisas que ele fala são de conhecimento geral, como os fatos que dizem respeito ao bilhete e a recusa da família em colaborar, outros fatos, no entanto, não podem ser provados com tanta facilidade por alguém que não teve contato direto com as pastas do caso.

Não que o que Thomas fale no seu livro soe absurdo ou mentiroso – a hipótese do que teria acontecido no dia do assassinato de JonBenet, que ele dá no final do livro, é de longe uma das mais plausíveis que eu já li ou ouvi – mas é sempre bom ler um livro de não ficção com um pé atrás e tirar as suas próprias conclusões.

O que se pode dizer com certeza sobre JonBenet: Inside the Ramsey Murder Investigation é que o livro dá sim uma clareada em um caso que é, ainda hoje, extremamente obscuro, repleto de aspectos bizarros e que tem uma aura bem macabra. Thomas apresenta provas claras, seguidas de suas próprias conclusões, ao mesmo tempo que fala sobre a sua vida, que ele relegou por anos, enquanto investigava o caso, e cita nomes de colegas, que diferente dele, não pareciam tão dispostos a irem atrás da verdade.

O cenário que Thomas pinta nos faz acreditar na sua palavra, porque quando explicado com cuidado, o caso, que parece extremamente misterioso e sinistro, se torna algo simples e que já vimos antes. Segundo o autor, os pais exageraram em alguma punição, acharam que a menina estava morta, simularam uma morte quase ritualística e depois, enrolaram a polícia, com o prestigio e o dinheiro que eles tinham.

É importante lembrar, no entanto, que essa é a opinião de Thomas e que ninguém nunca foi acusado oficialmente pelo assassinato de JonBenet. Patsy e John foram os principais suspeitos por muitos anos, mas foram inocentados totalmente em 2008, uma decisão que Thomas questiona.

A leitura de JonBenet: Inside the Ramsey Murder Investigation não é fácil, porque trata de um assunto pesado e em vários momentos somos confrontados com detalhes do caso, que tornam as coisas ainda mais pesadas, mas é interessante e o leitor fica preso, querendo desvendar o mistério junto com Thomas. Claro que o livro vai agradar as pessoas que gostam e se interessam por crimes reais ou mesmo, especificamente pelo caso de JonBenet.

No final, não temos nenhuma resposta, porque o caso nunca foi oficialmente resolvido – e talvez nunca vá ser – mas o livro de Thomas cobre as pistas e as teorias mais razoáveis e dá ao leitor a sensação de que ele tem a resposta e que de alguma maneira, a morte de JonBenet Ramsey foi vingada.

Desde que o livro foi publicado, em 2000, o caso de JonBenet voltou a ganhar notoriedade, primeiro em 2006, quando John Mark Karr, preso por consumo de pornografia infantil, confessou falsamente o assassinato, depois quando o caso foi reaberto, em 2010, e no ano passado, quando um homem disse que o assassino era seu amigo, Gary Oliva. Oliva cumpriu pena por posse de pornografia infantil e entre as suas fotos, também estavam algumas fotos da autopsia de JonBenet. Nenhum desses homens foi formalmente acusado.

Em 2016, quando o caso completou vinte anos, uma série de documentários e séries sobre o assunto foram produzidos, Burke, o irmão mais velho de JonBenet – na época com vinte e nove anos – chegou a dar entrevistas, onde garantiu que não matou a irmã e que tem certeza que seus pais também não são culpados. Patsy morreu em 2006, em função de um câncer. Os filmes não traziam nenhuma informação nova, que poderia dar mais clareza ao caso.

JonBenet Ramsey completaria trinta anos em agosto desse ano e é terrível que sua vida tenha sido tirada de forma tão brutal, quando ela tinha apenas seis. Cada ano que passa sem que seu caso seja resolvido e seu assassino seja punido, é cometida mais uma violência contra ela, o livro de Thomas não resolve esse problema, mas dá ao leitor a sensação de que pelo menos, alguém tentou.

Quando lido com as devidas restrições – de que o leitor tire suas próprias conclusões – é um ótimo caso de estudo e uma grande investigação, enquanto esperamos que se faça justiça para JonBenet Ramsey.

Título original: JonBenet: Inside the Ramsey Murder Investigation

Autores: Steve Thomas, Don Davis

Gênero: Crime real, Suspense

Ano de lançamento: 2000

Editora: St. Martin’s Griffin

Número de Páginas: 413

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