Crime real, livros

Black Dahlia Avenger: A Genius for Murder: The True Story, Steve Hodel

“When I despair, I remember that all through history the way of truth and love have always won. There have been tyrants and murderers, and for a time, they can seem invincible, but in the end, they always fall. Think of it–always. ”- Mahatma Gandhi

“Quando me desespero, lembro-me de que em toda a História a verdade e o amor sempre venceram. Houve tiranos e assassinos e, por um tempo, pareciam invencíveis, mas, no final, sempre caíram. Pense nisso! Sempre.”.- Mahatma Gandhi

Steve Hodel, um policial aposentado, tinha retomado contato com seu pai, George Hodel, a pouco tempo, quando George morreu, em 1999. June, a esposa de George e madrasta de Steve, pede que ele dê uma olhada nos papeis do falecido, já que ela não consegue.

Olhando um álbum de fotos antigas do pai, Steve encontra fotos de uma mulher que ele acredita ser Elizabeth Short, a Dália Negra, vítima de um crime brutal, em Los Angeles, em 1947, até hoje nunca resolvido.

Cismado, Steve começa a investigar o passado do próprio pai para descobrir uma série de segredos macabros e terríveis.

Black Dahlia Avenger: A Genius for Murder: The True Story é um relato da investigação de Steve Hodel e explica sua teoria de que seu pai, George Hodel, seria o assassino de Elizabeth Short.

O crime

Elizabeth Short era uma aspirante a atriz, que tinha se mudado para Los Angeles, acreditando que sua beleza lhe garantiria uma carreira no cinema. Short também tinha bastante interesse em militares e mantinha relações românticas com vários homens diferentes.

Na manhã do dia 15 de janeiro de 1947, uma dona de casa avistou o que ela acreditava ser um manequim, em um terreno baldio em Los Angeles. Quando ela se aproximou, percebeu que na realidade, se tratava de um corpo humano mutilado.

O corpo – que mais tarde seria reconhecido como Short – tinha sido cortado ao meio, tinha diversas lacerações e a boca tinha sido cortada quase até as orelhas, criando um sorriso macabro. Ele também tinha sido posicionado com os braços para cima e as pernas abertas, como se a vítima fizesse uma pose.

 A imprensa chegou ao local de crime antes da polícia, o que prejudicou a investigação e possibilitou que fotos do corpo, que até hoje circulam na internet, fossem tiradas e publicadas.

A investigação descobriu que Short tinha sido vista pela última vez com vida no dia 9 de janeiro, e que ela tinha sido torturada por vários dias, sendo morta entre os dias 9 e 15 de janeiro. Além disso, como o corpo estava limpo e completamente sem sangue, a polícia determinou que Short provavelmente tinha sido morta em outro lugar e apenas desovada no terreno baldio.

Algum tempo depois, o assassino chegou a se comunicar com a polícia e com a imprensa mandando recados com palavras recortadas de revistas, e prometendo que ele enviaria a bolsa de Short, que ele de fato fez. A polícia chegou a investigar uma série de suspeitos, mas nunca indiciou ninguém formalmente e o caso nunca foi solucionado.

O caso ficou famoso, devido a brutalidade a que Short foi submetida e também porque ele nunca foi solucionado e ele é até hoje um dos casos mais famosos de Los Angeles.

Steve Hodel

Steve Hodel nasceu em 1941, em Los Angeles, filho de George e Dorothy Hodel – apelidada por George de Dorero, já que ele já tinha sido casado com outra Dorothy – e durante um tempo, ele, o pai e os irmãos viveram em uma mansão na cidade. George, no entanto, logo largou a mãe de Steve, e foi atrás de outro casamento e Steve, Dorero e os outros filhos foram deixados sem dinheiro e sem casa.

Steve só retomou o contato com o pai quando já era adulto e tinha se alistado no exército, mas mesmo assim, George foi frio e não deu muita conversa para o filho. Quando George estava mais velho, no entanto, Steve tentou de novo e dessa vez, passou a frequentar a casa de George, que agora já estava casado com June e nem morava mais nos Estados Unidos.

Quando seu pai morreu, em 1999, Steve recebeu de June um álbum de fotos, onde o pai guardava fotos de pessoas importantes para eles. O álbum tinha fotos da mãe de Steve, dos filhos de George e duas fotos de uma mulher que Steve não reconheceu a princípio, mas que chamaram a sua atenção.

Com o tempo, Steve teve a certeza que a mulher na foto era Elizabeth Short – No entanto, nunca foi provado que a mulher na foto de fato é Short – e começou a investigar, chegando a conclusão de que seu pai, George Hodel, teria assassinado Elizabeth Short.

George Hodel

George Hodel, por outro lado, é uma figura um tanto quanto sinistra. Ele nasceu em 1907, também em Los Angeles e desde muito cedo, foi considerado um gênio, o que fez com que ele pulasse algumas etapas básicas da vida e estivesse sempre próximo de pessoas muito mais velhas que ele.

Ele trabalhou como taxista, depois como jornalista investigativo e mais tarde, se formou em medicina, se tornando famoso em Los Angeles, no trato de doenças venéreas.

Em Black Dahlia Avenger: A Genius for Murder: The True Story, Steve passa bastante tempo dissecando a vida do pai e dá ao leitor bastante informações sobre a infância e a adolescência de George, mas dá mais destaque a vida adulta do homem, que é onde, segundo Steve, teriam começado a surgir seus ímpetos sádicos, violentos e assassinos.

Steve então, fala sobre as festas que o pai costumava dar na casa da família, regadas a drogas e sexo, sempre acompanhado de seu amigo, Fred Sexton.

É verdade que a vida de George é um tanto quanto misteriosa e é cheia de segredos sinistros, o que faz o leitor crer que mesmo se o homem não for um assassino, ele é, pelo menos, criminoso.

Em 1949, por exemplo, a meia irmã de Steve, Tamar Hodel fugiu de casa, e quando foi encontrada pela polícia, disse que tinha fugido porque seu pai vinha a estuprando desde os onze anos de idade, tinha a engravidado (e depois pago por um aborto) e obrigado a filha a manter relações sexuais com outros homens e mulheres, entre eles Fred Sexton.

George chegou a ir a julgamento pelo estupro de Tamar e três testemunhas atestaram que mantiveram relações sexuais com a adolescente na frente de George, mas o homem foi tão convincente que acabou fazendo com que as acusações fossem retiradas e que Tamar fosse enviada para um reformatório. Foi nessa época, que a polícia começou a considerar George como um dos suspeitos do caso da Dália Negra, uma vez que Tamar, supostamente teria dito a uma amiga que seu pai era perigoso e tinha possivelmente matado Short.

Durante suas investigações, Steve descobriu que a polícia queria prender George pelo estupro de Tamar para então, poder investigar o homem mais fundo, já que segundo Steve, eles estavam certos de que George era o culpado. Steve também descobriu que George era suspeito de assassinar uma de suas secretarias, em 1945.

Tamar morreu em 2015, mas sempre manteve sua acusação de estupro, ela também acusava o pai de molestar sua filha mais nova, Fauna 2, George nunca foi incriminado, mas a filha de Fred Sexton sempre disse que acreditava em Tamar, já que seu pai também a molestava.

O livro

A vida de George Hodel é cheia de aspectos sinistros e embora nunca tenha sido provado que ele molestou sua filha, o fato do caso ter tido força o suficiente para chegar ao tribunal, fazem com que a desconfiança em torno de toda a história cresça, mas isso é o suficiente para ligar George ao assassinato de Short?

Black Dahlia Avenger: A Genius for Murder: The True Story quer provar essa teoria. O livro começa falando sobre o próprio George, desde a infância até a vida adulta, passa pela vida do próprio Steve e só depois começa a relacionar o homem a Short.

A teoria de Steve é interessante, mas quase que totalmente circunstancial, não existe nenhuma prova cientifica de que George Hodel sequer conhecesse Elizabeth Short, mas Steve supõe que os dois se conheceram quando Short foi ao consultório de seu pai se tratar de alguma doença sexualmente transmissível, e que os dois começaram um namoro e mais tarde, George quis se casar, mas foi recusado por Short, o que o levou a cometer o assassinato.

Ele relaciona todas as brutalidades infligidas ao corpo de Short aos fetiches de seu pai e a influência da obra de Man Ray, um artista que criava peças muito parecidas com a cena de crime da Dália Negra.

Sem dúvida nenhuma que a história é muito interessante e certamente daria um livro de ficção ótimo, mas é bem improvável que Steve consiga algum dia provar que seu pai matou Short, mesmo porque até as provas que ele apresenta no livro, algumas vezes, soam absurdas.

O caso de Black Dahlia Avenger: A Genius for Murder: The True Story é bem parecido com o do livro O Animal Mais Perigoso de Todos, de Gary L Stuart, onde o autor acredita que seu pai foi o assassino Zodíaco. Steve e Gary tem mais coisas em comum ainda: os dois tiveram pouco contato com os pais durante a vida e criaram essas teorias depois que os dois homens já estavam mortos.

Essa semelhança entre os dois casos, levanta uma questão, será que essa não é a forma que os dois homens encontraram de estarem próximos de pais que eles nunca conheceram de fato?

No entanto, diferente de Gary, cujo o nome do pai nunca sequer foi mencionado na investigação do caso Zodíaco, George Hodel de fato, foi um dos suspeitos no caso Dália Negra, o que torna a impressão de Black Dahlia Avenger: A Genius for Murder: The True Story dúbia: talvez George Hodel esteja mesmo envolvido no assassinato de Short, mas as provas que Steve oferece também não são fortes o suficiente para que o leitor termine a leitura completamente convencido.

Outros crimes

O que torna a investigação de Steve ainda menos crédula é o fato de que ele atribui a George outros crimes. O autor faz uma lista de uma série de crimes que aconteceram na mesma época em Los Angeles que teriam características semelhantes com o da Dália Negra, entre eles, inclusive o de Jean Ellroy, mãe do autor James Ellroy, que também nunca foi resolvido. Ellroy mais tarde, escreveria um romance ficcional inspirado no caso de Short.

Steve até contextualiza bem esses crimes e explana o que ele acredita se relacionar com o caso de Short e na sua interpretação com George Hodel, mas a história não soa muito crível e mais uma vez, as provas são circunstancias.

Depois de Black Dahlia Avenger: A Genius for Murder: The True Story, Steve continuou sua investigação e escreveu outro livro, chamado Most Evil: Avenger, Zodiac and the Further Serial Murders of Dr. George Hill Hodel onde ele defende que seu pai também cometeu crimes fora de Los Angeles e que George poderia ser responsável pelos crimes atribuídos ao Assassino do Batom, o assassinato de Lucila Lalu e pelos crimes atribuídos ao Zodíaco.

Acaba se tornando meio difícil de acreditar que George, por mais cruel que ele fosse, pudesse ser o responsável por boa parte dos crimes não resolvidos dos Estados Unidos (e até de fora deles, como no caso de Lucila Lalu, que aconteceu em Manila), mesmo porque se esse fosse o caso, George não teria tempo para fazer mais nada na vida dele. No caso dos assassinatos do Zodíaco, por exemplo, que aconteceram no final dos anos 60, George já seria um senhor de 61 anos de idade, o que torna essa parte da história um pouco improvável, uma vez que os crimes do Zodíaco eram extremamente fiscos e brutais.

Claro que existem questões na teoria de Steve que tem algum sentido e que foram comprovadas pela polícia, como o fato de que George de fato foi um suspeito no caso de Short e que se sabia que devido ao estado do corpo (cortado ao meio com perfeição e com o útero retirado) o assassino da Dália Negra muito possivelmente era um médico ou um açougueiro, mas muitas das coisas que estão no livro não passam de especulação.

É impossível que Geoge Hodel seja um gênio do crime responsável por crimes atribuídos a mais de cinco assassinos diferentes? Não, só é bem improvável. A ideia de descobrir que seu pai não só é cruel e pervertido, como também é responsável por uma série de crimes é um prato cheio para uma trama de ficção, mas não faz tanto sentido dentro de uma trama realista, quando Steve diz que seu pai cometeu tantos crimes assim, o leitor começa a desacreditar em tudo que ele diz, até no que poderia ser levado a sério, como a suposta relação entre George e o crime da Dália Negra.

A polícia de Los Angeles

A parte final de Black Dahlia Avenger: A Genius for Murder: The True Story se dedica a falar sobre a polícia de Los Angeles e mais especificamente, como era a polícia na época do assassinato de Short.

Steve parte de um ponto que é relativamente conhecido, o fato de que a polícia da época era muito corrupta. Na interpretação de Steve, a polícia sabia que George era responsável não só pelo crime da Dália Negra, mas também pelo assassinato de Jeanne French, mas George era influente na cidade e sabia do envolvimento da polícia com uma série de médicos que faziam abortos em Los Angeles – na época, o aborto ainda era considerado crime nos Estados Unidos– e que por isso, a investigação não teria ido para a frente.

A trama toda que Steve pinta em Black Dahlia Avenger: A Genius for Murder: The True Story tem ares de livro noir e claro, dá uma boa história, mas como boa parte do que ele apresenta aqui, não pode ser provado.

Justamente por ter uma trama muito próxima de um romance noir, com todos os ingredientes necessários para o gênero (assassinato, corrupção, violência, incesto e conspiração), a leitura de Black Dahlia Avenger: A Genius for Murder: The True Story é muito interessante e o leitor fica muito preso, querendo investigar o caso junto com Steve.

Se tratando de um livro que fala sobre um crime real e que obviamente tem um ponto a provar, é sempre bom lê-lo com um pé atrás, sabendo que nem tudo que o autor expõe aqui é necessariamente verdade. O livro é indicado por quem se interessa por crimes reais e especialmente para quem tem curiosidade sobre o caso da Dália Negra, no entanto, é bom ter em mente, que o livro fala de um crime extremamente chocante e cruel e que mesmo Steve evitando dar detalhes, em muitos momentos eles aparecem e que para além disso, ele fala de outros casos de estupro, violência, assassinato, tortura e incesto, então, não é para os leitores mais sensíveis.

É certo que Black Dahlia Avenger: A Genius for Murder: The True Story apresenta uma teoria interessante e que pode ter fundos de verdade, no entanto, seu autor não é capaz de prova-la por completo, o que que faz com que o livro seja muito mais especulativo do que completamente realista. Nada disso, impede a leitura de Black Dahlia Avenger: A Genius for Murder: The True Story, que se feita com parcimônia, se torna instigante e até mesmo, informativa.

Título original: Black Dahlia Avenger: A Genius for Murder: The True Story

Autor: Steve Hodel

Gênero: Crime real, Crime, Suspense

Ano de lançamento: 2003

Editora: Arcade Publishing

Número de Páginas: 550

2 comentários em “Black Dahlia Avenger: A Genius for Murder: The True Story, Steve Hodel”

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