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44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: Mamãe, Mamãe, Mamãe, 2020

Cleo (Agustina Milstein) tem onze anos e está passando um tempo com a mãe (Jennifer Moule), a tia (Vera Fogwill), a avó (Ana María Monti) e as primas (Chloé Cherchyk, Camila Zolezzi e Matilde Creimer Chiabrando) em uma casa no campo.

Uma amiga da família e sua filha, Aylin (Siumara Castillo) se juntam a elas, enquanto Cleo aprende a lidar com seu próprio crescimento e suas experiências, assim como as experiências das outras meninas e mulheres e com a depressão de sua mãe.

Universo feminino

Uma das coisas mais interessantes de Mamãe, Mamãe, Mamãe é que ele é um filme quase que inteiramente feminino. As personagens são Cleo, todas as mulheres da sua família, e duas amigas da família, que estão reunidas em uma casa.

As meninas – Cleo e suas três primas, Nerina, Manuela e Leoncia – variam as idades, o que faz com que cada menina contemple uma fase do crescimento. Nerina é uma adolescente que já mostra interesse por rapazes, Cleo acabou de ter sua menarca, Manuela, que tem dez anos, se vê dividida entre passar seu tempo com Cleo falando de garotos e de primeiros beijos ou com Leoncia, a irmã mais nova, que ainda brinca de boneca.

O mesmo acontece com as mulheres adultas, que no filme não tem nome próprio e são diferenciadas pelos parentescos que elas têm com Cleo – mãe, tia, avó – enquanto a mãe de Cleo luta com uma severa depressão, que a impede de sequer sair do quarto, a tia e a avó seguram as pontas, tanto para a mãe de Cleo, quanto para as meninas.

O filme todo se passa dentro dessa casa, aparentemente no campo e distante de outras pessoas, onde essas nove mulheres se relacionam e trocam histórias. As meninas parecem claramente entediadas, enquanto as mulheres adultas soam conformadas com o que elas têm, mas uma coisa é clara, aquele é um universo muito particular e inteiramente feminino, que quase não sofre influência do mundo exterior e consequentemente, masculino.

O telespectador, que acompanha o filme pelos olhos de Cleo, se vê preso na casa junto com as meninas e completamente entregue ao tedio delas, embora Mamãe, Mamãe, Mamãe não seja um filme parado.

O longa então, mergulha no universo das meninas pré-adolescentes e adolescentes, que ressoa a mulheres de praticamente todas as gerações: testes de revista, diversão com maquiagem, conversas sobre garotos, práticas de primeiro beijo e compartilhamento de segredos.

Filme de formação

Mamãe, Mamãe, Mamãe também é um filme de formação, primeiramente de Cleo, mas também de todas as mulheres que estão na casa.

Cleo não só lida com todas as dúvidas que assolam uma criança que está se tornando adolescente, como também com a sua primeira menstruação e com algo menos comum, a depressão de sua mãe. É óbvio que aquele é um período decisivo para Cleo, que passa por mudanças corporais e internas.

Manuela, a prima de dez anos e Aylin, de doze anos, também se veem muito próximas da situação de Cleo, uma vez que também estão na entrada da pré-adolescência e também estão vivenciando as mudanças significativas que acontecem no corpo feminino, nesse período. Já Nerina, que já tem quinze anos, se vê em outra situação, ela é uma adolescente presa entre mulheres mais velhas e meninas mais novas, embora ela seja capaz de instruir Cleo quando a prima menstrua, ela também não sabe responder questões sobre seu próprio corpo e sobre os desejos que vem sentindo.

As mulheres adultas podem não estar passando por fases de formação, mas estão passando por fases de mudanças, como a mãe de Cleo que precisa se curar de sua depressão e aceitar os fatos que a levaram a isso.

Crescimento

Como Mamãe, Mamãe, Mamãe é um filme de formação é natural que ele fale de crescimento e no caso de um universo quase que totalmente feminino, ele também fala do que crescer e se tornar adulta significa quando se é mulher.

Cleo e suas primas vivem dentro daquele universo onde, aparentemente, não existe perigo. Quando Aylin chega na casa, ela conta, em clima de histórias de terror que são narradas em volta da fogueira, sobre meninas da sua cidade que desaparecem, supostamente nas mãos de um perueiro. Todas as meninas parecem extremamente interessadas na história, até que elas começam a se apavorar.

É aí, que o mundo de fora e especificamente, o mundo masculino entra pela primeira vez na vida daquelas meninas. A história das meninas desaparecidas também implica na violência contra as mulheres, que é, na maioria das vezes, perpetuada por homens e consequentemente, na primeira vez que essas meninas têm conhecimento disso.

Quando Leoncia desaparece pela propriedade, a história de Aylin fica ainda mais próxima das meninas, e enquanto elas procuram pela prima e irmã mais nova, uma série de coisas passam pelas suas cabeças.

Quando se trata de amadurecimento e da formação de personagens femininas, é importante que Mamãe, Mamãe, Mamãe fale também dos perigoso que as mulheres, de uma forma geral, estão submetidas em uma sociedade patriarcal e machista.

Aspectos técnicos

Mamãe, Mamãe, Mamãe é um filme simples e seu roteiro segue essa linha. O longa não tem muita ação e se passa quase que unicamente em um único lugar, mas isso não quer dizer que pouca coisa acontece.

Muito pelo contrário, Mamãe, Mamãe, Mamãe tem muitas tramas acontecendo, mesmo que ele escolha dar prioridade a vida de Cleo, todas as personagens têm suas questões e seus problemas e isso aparece no filme. Mamãe, Mamãe, Mamãe é um filme que aborda o universo feminino e como tem personagens de praticamente todas as faixas etárias, faz um bom trabalho em cobrir praticamente todas as fases da vida de uma mulher e os questionamentos que vem com elas.

Mamãe, Mamãe, Mamãe funciona justamente porque é simples, e porque causa um reconhecimento quase imediato com o público feminino, uma vez que fala sobre questões muito próximas a boa parte das mulheres.

O clima do filme e a sua ambientação, que mostra cinco meninas presas dentro de uma casa, lembra muito As Virgens Suicidas, de Sofia Coppola, que também acompanha cinco adolescentes – embora bem mais velhas que Cleo e suas primas – presas em uma casa, enquanto lidam com seu amadurecimento, suas sexualidades e suas relações com seus pais e sua comunidade. Como o filme de Coppola, Mamãe, Mamãe, Mamãe é extremamente delicado, mesmo quando trata de temas não tão leves, como a depressão da mãe de Cleo e a reação da menina a isso.

Mamãe, Mamãe, Mamãe é um filme sobre o universo feminino e sobre o que significa se tornar uma adulta em um mundo que ainda se segura a ideias antiquadas e onde homens se sentem no direito de tratarem mulheres como propriedades, o longa fala sobre tudo isso de maneira discreta e delicada, mas ainda o faz e dessa forma, se aproxima muito da experiência real.

Mamãe, Mamãe, Mamãe faz parte da programação da 44ª Mostra Internacional de Cinema, que acontece entre os dias 22 de outubro a 4 de novembro. O evento traz 198 filmes, de 78 países diferentes.

Devido a pandemia de Covid-19, em 2020, a Mostra Internacional de Cinema vai ser apresentada de maneira digital, através da plataforma Mostra Play, com algumas sessões no Petra Belas Artes Drive-in. O filme de abertura, Nova Ordem, do México, vai ser exibido no Petra Belas Arts no dia 22 de outubro, as 19h00. As 00h01, o filme estará disponível na plataforma Mostra Play por 24 horas. Os outros filmes da programação estarão disponíveis a partir das 20h00, do dia 22.

Os filmes que fazem parte da programação poderão ser assistidos em qualquer horário, mediante pagamento. Para mais informações, acesse: https://44.mostra.org/.

Título no Brasil: Mamãe, Mamãe, Mamãe

Título original: Mamá, mamá, mamá

Direção: Sol Berruezo Pichon-Riviére

Gênero: Drama

Nacionalidade: Argentina

Ano: 2020

Duração: 1h03

Elenco: Vera Fogwill, Camila Zolezzi, Siumara Castillo, Chloé Cherchyk, Agustina Milstein

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