Adaptações, série

Série: Bom Dia, Verônica (1ª temporada), 2020

Verônica Torres (Tainá Müller) é uma escrivã de polícia, que já está cansada do seu trabalho, até que, dois casos surgem na sua vida.

Primeiro, uma mulher (Julia Ianina) se suicida na delegacia, na frente de Verônica, levando a escrivã a querer investigar o caso mais a fundo, depois, ela recebe uma ligação de Janete (Camila Morgado), dizendo que seu marido (Eduardo Moscovis) é um serial killer que mata mulheres e que ela corre risco de vida.

Verônica então, resolve investigar os dois casos e tentar salvar Janete.

Bom Dia, Verônica é inspirada no livro de mesmo nome de Ilana Casoy e Raphael Montes.

A série começa de maneira bem fiel ao livro, Verônica é uma escrivã que deseja ter mais poder dentro do seu trabalho, mas que não vê muito espaço para isso. Embora ela se dê bem com o delegado titular, Wilson Carvana (Antônio Grassi), a delegada assistente, Anita (Elisa Volpatto) é um problema para Verônica.

Verônica também é casada com Paulo (Cesar Mello) e tem dois filhos e vive tendo que balancear a carreira com a vida pessoal.

Ela vê sua vida mudar quando testemunha o suicídio de uma mulher que tinha ido falar com Carvana. Quando começa a investigar o caso, Verônica descobre que a mulher foi enganada e roubada por um homem que conheceu em um site de namoro.

Ao mesmo tempo, ela recebe a ligação de Janete, uma mulher que diz que seu marido, Claudio, é um assassino e que ela mesma corre perigo de vida. Os dois casos apresentados na série, estão presentes no livro, a única diferença aqui é que o caso do homem que engana mulheres vai ficando mais a escanteio e o de Janete vai ganhando mais destaque.

Isso não é um problema e também acontece no livro, o caso de Janete é bem mais interessante, na série, o outro caso fica meio em aberto, como se fosse ser melhor explicado na possível segunda temporada. É legal que a série faça isso porque tem mais tempo para explorar o caso de Janete e Claudio.

Além disso, Bom Dia, Verônica acrescenta outras tramas, como uma possível conspiração dentro da polícia e corrupção, que ficam sem uma finalização, mas que deixam pontas soltas para uma continuação e dessa forma, deixa o telespectador torcendo para que a série seja renovada para uma segunda temporada.

No entanto, o caso de Janete e Claudio é bem próximo ao que está no livro e tem pequenas mudanças. Uma delas é a aparição da irmã de Janete, Janice (Marina Provenzzano), Janice existe no livro, mas só é citada, que a princípio soa meio aleatória, mas que vai se tornando importante ao longo da série.

Outra é a diminuição da violência. O livro tem descrições bem claras do que Claudio faz, o que deixa alguns momentos da trama bem perturbadores, a série deixa bastante coisa para imaginação. Uma vez que se trata de uma obra audiovisual, que vai de fato, mostrar o que está acontecendo e não depende unicamente da imaginação do leitor, essa mudança é interessante, porque pode aumentar o público e atrair até mesmo quem tem o estomago mais fraco.

A série fez outras mudanças que são acertos, como algumas partes da personalidade de Verônica, no livro, embora ela seja casada, ela mantém uma série de casos extraconjugais, que parecem terem sido inseridos na trama para que a protagonista se aproxime dos protagonistas da literatura noir, que são cheios de defeito e estão bem longe da ideia de herói. A ideia é até interessante, uma vez que aproxima Verônica de vários detetives clássicos da literatura, mas também deixa o leitor um pouco irritado com a protagonista – talvez até por um background machista, que acredita que é ok um personagem masculino trair e terrível que uma personagem feminina faça o mesmo -. A série cortou todo esse teor, Verônica é fiel ao seu marido, ela pisa na bola algumas vezes, assim como ele também o faz, e o casamento tem problemas, mas a infidelidade não é um deles.

O roteiro também traz à tona questões atuais que não estão presentes no livro, a série fala de milícias e Verônica alerta Carvana o tempo todo para que ele não dispense uma opinião feminina, dizendo que ela é “louca”. Os dois assuntos são bem debatidos nos dias de hoje e de uma certa forma, aproximam o telespectador da história.

Uma mudança, no entanto, não cai tão bem. A relação de Verônica com Anita parece completamente desnecessária, ainda mais quando falamos de uma série que tem como protagonista uma mulher forte e que aborda temas que dizem respeito as mulheres, como a violência a mulher, o estupro e o abuso.

Anita não existe no livro, e na série, ela não só não se dá bem com Verônica, como também é uma mulher que reforça comportamentos machistas. Além disso, a relação das duas só bate na tecla da rivalidade feminina dentro do trabalho, como se mulheres, que trabalham juntas, não pudessem ser amigas e se ajudarem. Uma vez que Anita é uma personagem criada para a série, parece quase sem sentido que uma série que quer falar de mulheres, escolha colocar uma relação tão problemática entre duas mulheres.

Acompanhamos a trama tanto do ponto de vista de Verônica, quanto do ponto de vista de Janete, por isso, o que Claudio faz não é exatamente um mistério, podemos não saber detalhes, mas fica claro desde o começo que ele é um serial killer. Pode parecer que isso estraga um pouco a história, mas não, porque a maneira com que a trama se desenrola é bem interessante.

De uma maneira geral, a trama é relativamente realista e traz aspectos que dizem respeito ao Brasil, a polícia daqui, os hábitos daqui e a justiça daqui, ela tem sim, alguns detalhes bem fantasiosos, mas que passam batido e que podem ser perdoados de frente ao resto da trama que é bem construído. Além do mais, não é como se as obras policias de fora do Brasil, não fizessem a mesma coisa.

A principal graça de Bom Dia, Verônica é inclusive, essa ideia de entrar em contato com uma trama de suspense policial nos moldes do Brasil. Quando se assiste a série, a qualidade é indiscutível, Bom Dia, Verônica é muito bem produzida, muito bem atuada e muito bem escrita e não deixa nada a desejar a séries policiais de fora do Brasil e nesse sentido, é um ótimo estimulo para que o país produza e consuma cada vez mais conteúdos nacionais.

Bom Dia, Verônica tem um bom elenco. Tainá Müller está muito bem no papel principal e interpreta uma Verônica que não cai nos estereótipos geralmente reservados a policiais femininas. Enquanto ela é retratada como durona e seria, ela não é masculinizada e Anita, sua rival, aparece como o seu exato oposto em todos os sentidos, inclusive nos figurinos.

Camila Morgado também está ótima e consegue transmitir toda a complexidade de sua personagem. Janete é obviamente uma vítima de violência doméstica, que de maneira forçada, é cumplice do marido. Ela está apavorada, porque tem medo de morrer e porque não concorda com o que o marido faz, mas ela também o ama e está sempre dividida entre o medo e o amor. O telespectador pode até sentir raiva da personagem em alguns momentos, mas talvez porque não compreenda a situação em que Janete se encontra.

O vilão da série é Carlos, interpretado por Eduardo Moscovis, que também está muito bem. Como boa parte das cenas em que ele aparece são mostradas do ponto de vista de Janete, o telespectador também consegue sentir o que a personagem sente: fica claro que ele é monstruoso quando ele sequestra mulheres e bate em Janete, mas ele também tem momentos onde é gentil e carinhoso, como quando se oferece para ajudar Janice a pagar o tratamento da mãe de Janete.

Nós estamos de fora da história, por mais envolvente que a trama seja, por isso, podemos ver com clareza que Claudio é um assassino sádico, mesmo que ele tenha momentos doces.

Outro ponto interessante é que Paulo, o marido de Verônica é interpretado por César Mello, um ator negro. No livro não existe nenhuma descrição física do personagem, portanto ele poderia ser tanto negro, quanto branco, quanto oriental, quanto indígena, seria muito mais fácil e mais comum para a série simplesmente escalar um ator branco, mas eles resolveram fazer diferente. A trama não entra nesse aspecto em nenhum momento e a cor da pele de Paulo não é uma questão, mas justamente por isso que também é importante, precisamos falar sobre racismo, mas personagens negros não existem única e exclusivamente para falar de racismo.

A série também é muito empolgante e muito envolvente, é muito difícil largar Bom Dia, Verônica, antes de chegar ao último episódio. Os capítulos são grandes (em torno de 42min), mas eles passam muito rápido, justamente porque o ritmo da série é muito boa e a trama prende muito.

Bom Dia, Verônica é uma ótima adaptação, mas mais do que isso, é uma ótima série policial, que não deixa nada a desejar as séries de fora do Brasil. A série é bem produzida e tem uma trama e um roteiro extremamente bem escritos, e definitivamente merece uma segunda temporada.

Título no Brasil: Bom Dia, Verônica

Título original: Bom Dia, Verônica

Elenco: Tainá Müller, Camila Morgado, Eduardo Moscovis, Elisa Volpatto, Sílvio Guindane

Gênero: Drama, Policial, Suspense

Duração do episódio: 42min

Número de episódios: 8

Ano: 2020

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