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Filme: Todos os Mortos, 2020

São Paulo, 1899, a escravidão acabou há onze anos e a família Soares, ainda tenta se segura a seus privilégios, enquanto tentam se acostumar com as novas leis.

Enquanto isso, Iná (Mawusi Tulani), escravizada recém liberta, tenta reconstruir sua vida e melhorar a vida de seu filho, João (Agyei Augusto).

O assunto principal de Todos os Mortos é a escravidão e o legado que ela deixou, mas é impossível não notar que ele é um filme majoritariamente feminino.

Todos os Mortos trabalha com duas tramas, que se intercalam: a família Soares, composta por três mulheres brancas, a mãe Isabel (Thaia Perez), e suas duas filhas Maria (Clarissa Kiste) e Ana (Carolina Bianchi), antigas proprietárias de terra, que ainda se seguram aos seus privilégios e Iná, mulher negra e ex-escravizada, que tenha superar a escravidão e melhorar de vida, ao mesmo tempo que cria o filho.

Os personagens masculinos até existem, mas aparecem pouco e na maioria das vezes ou tem participações pequenas, como o marido de Iná, que está longe ou são apenas citados, como o patriarca da família Soares, que quando o filme começa, já está morto.

As mulheres retratadas, no entanto, são muito diferentes entre si, já que elas veem de backgrounds completamente diversos. Enquanto Iná foi escrava, Isabel, Maria e Ana sempre foram servidas.

Todos os Mortos então, fala sobre a escravidão e sobre a abolição da escravidão do ponto de vista feminino, o que não é tão comum no cinema brasileiro.

O filme se passa em 1899, onze anos depois que a escravidão foi abolida no Brasil.

Embora a situação pareça completamente resolvida, essa não é bem a verdade, uma vez que mesmo depois da abolição da escravidão, os negros continuavam sofrendo preconceito e ainda precisavam se submeter a trabalhos que não estavam muito longe da escravidão. Em Todos os Mortos, todos os personagens negros trabalham como empregados, e geralmente, estão servindo pessoas brancas, mostrando que a situação não se alterou tanto assim.

O caso de Iná, por outro lado, é diferente, ela tem muita dificuldade de arrumar um emprego embora procure com empenho e enquanto faz isso, ela precisa deixar seu filho sozinho.

João, o filho de Iná começa a passar cada vez mais tempo na casa de Isabel, recebendo lições de Ana, que acredita que faz um bem para o menino, embora Iná não goste dessa interação.

Todos os Mortos se passa no passado, mas reflete a maneira com que o Brasil foi construído e explana a forma com que o país funciona até hoje, onde o racismo é só bem escondido, mas ainda se faz presente, em maior ou menor intensidade e onde as oportunidades para a população negra são muito menores do que as oportunidades para a população branca.

Todos os Mortos também flerta, de maneira bem leve, com o fantástico. Ana, a filha mais nova da família Soares, com o tempo, vai ficando cada vez mais perturbada, o que preocupa toda a família.

Maria, que é freira, até abandona seu posto de professora em um colégio católico para ajudar a irmã. Enquanto isso, Ana parece sofrer de algum tipo de histerismo, onde ela diz ver pessoas andando pela casa e pela rua.

Curiosamente, a maioria das pessoas que Ana vê são negros, que já estão mortos. O filme não mergulha totalmente nessa idéia, mas dá a entender que Ana carrega com ela a culpa e o peso da escravidão e do que a população branca fez a população negra.

Essa sensação fica maior quando se percebe que na sua família, Ana é a mulher mais frágil e que embora ainda use e abuse dos privilégios que sua posição lhe dá, a que parece mais perturbada por questões sociais que não incomodam sua mãe e sua irmã.

Ana não chega a mostrar culpa e nem remorso, mas ela tenta se perdoar ensinando João e garantindo para a mãe do menino que essas aulas vão dar a ele maiores chances na vida. Talvez o histerismo de Ana seja uma maneira de colocar sua culpa para fora.

Todos os Mortos é um filme com uma produção cuidadosa, o longa se passa em 1899 e os aspectos técnicos dele nos colocam nessa época. Boa parte do filme se passa em uma grande propriedade, onde a família Soares vive, que já demonstra a diferença que existe entre aquelas mulheres e Iná, que precisa trabalhar para viver e mora em um lugar bem mais humilde.

O figurino também é primoroso, e muito fiel ao período que retrata. Naturalmente que as mulheres da família Soares, que são ricas tem roupas muito mais bonitas e bem mais limpas que as roupas de Iná, que é uma mulher pobre, recém saída da escravidão.

Todos os Mortos também faz uma clara distinção entre Ana, a irmã frágil e ligeiramente mais carinhosa, que está sempre de branco e Maria, a irmã mais forte, que sempre quer ter o controle da situação, que está sempre com habito de freira e, portanto, sempre de preto. Isabel, a mãe das duas também usa roupas escuras na maior parte do filme.

O longa tem como intenção falar sobre racismo e sobre o peso que a escravidão teve não só nas pessoas, mas também no Brasil e na forma em que o país se desenvolveu. Todos os aspectos do filme ressaltam essas questões, o roteiro já fala sobre isso claramente, e alguns detalhes aumentam essa sensação, como por exemplos, os comentários de Isabel sobre deixar o passado no passado e pensar no futuro, que soam extremamente próximos aos argumentos de pessoas nos dias de hoje, que apelam para que a escravidão seja completamente esquecida, ignorando os efeitos que ela tem atualmente, ou o fato de Maria tratar sua única aluna negra de forma bem distinta da que ela trata os outros alunos, que são brancos.

Todos os Mortos tem um roteiro bem interessante e uma condução inteligente, no entanto, ele se perde em algumas tramas, como a idéia dos fantasmas que Ana vê, que junto com o nome e com o clima do filme, fazem o telespectador achar que está assistindo um filme de suspense, embora essas tramas nunca sejam completamente desenvolvidas.

O longa tem boas atuações, como as de Clarissa Kiste e Mawusi Tulani, e fala sobre questões que ainda precisam ser discutidas, mas acaba se tornando um pouco arrastado e conseqüentemente, cansativo com o tempo.

Isso não é um problema grande dentro da trama, que prende o telespectador durante bastante tempo e que ainda dá espaço para discussões sociais, ao mesmo tempo em que entretém.

Todos os Mortos estreia no dia 10 de dezembro.

Título no Brasil: Todos os Mortos

Título original: Todos os Mortos

Direção: Caetano Gotardo, Marco Dutra

Gênero: Drama, Histórico

Nacionalidade: Brasil, França

Ano: 2020

Duração: 2h00

Elenco: Mawusi Tulani, Clarissa Kiste, Carolina Bianchi, Thaia Perez, Leonor Silveira

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