Crime real, livros

One Day She’ll Darken, Fauna Hodel

“Not even knowing who or what I was…

No wonder!

I wasn´t  accepted

I couldn´t even accepted myself”

“Sem saber quem ou o que eu era…

Não surpreende!

Eu não era aceita

Eu nem conseguia me aceita” – Traduzido livremente por Fernanda Cavalcanti

Patricia Greenwade nunca soube muito bem qual era sua origem. Criada por Jimmie Lee Greenwade, uma mulher negra, em um bairro com maioria negra, Patricia sempre soube que era adotada, mas nada sabia sobre a sua família biológica, além do fato dela supostamente, ser filha de uma mulher branca, com um homem negro.

No entanto, desde o dia em que chegou a casa de Jimmie Lee, ela chamou atenção por ter a pele branca. Sua mãe adotiva supõe que a pele da menina vai escurecer com o tempo, mas isso nunca acontece e embora a menina passe a juventude repetindo que é mestiça, quase ninguém acredita nela.

Quando começa a investigar o seu passado, Patricia descobre coisas curiosas sobre sua família, mas também segredos assustadores. Patricia, na verdade é Fauna Hodel, filha de Tamar Hodel e neta de George Hodel.

George Hodel era um médico famoso de Los Angeles, que esteve envolvido em uma série de histórias bizarras, mas a que mais afeta Fauna são as acusações de Tamar de que seu pai a molestou durante anos e que chegou a engravida-la (Tamar fez um aborto e Fauna não é filha de George).

One Day She’ll Darken, escrito pelo própria Fauna, acompanha essa história estranha e quase surreal, que se conecta com as manchetes policiais da Los Angeles dos anos 40.

O livro começa antes mesmo do nascimento de Fauna e como ele é narrado em terceira pessoa, isso não é exatamente um problema. Logo no começo acompanhamos a vida de Jimmie Lee, mulher negra que trabalha em um cassino e que convive com o mais variados tipos de pessoas. Um dia quando limpa o banheiro do lugar, uma mulher branca se aproxima dela perguntando se ela gostaria de adotar um bebê mestiço.

Jimmie Lee acha que é brincadeira e aceita, sem imaginar que algum tempo depois a mulher voltaria ao cassino dizendo que o bebê já tinha nascido e estava esperando que Jimmie Lee fosse busca-lo. O marido de Jimmie, na época, fica eufórico com a possibilidade de ter uma filha e os dois adotam Fauna.

Para Jimmie no entanto, Fauna não parece ser um bebê mestiço e ela já prevê todos os problemas que vai ter criando uma criança branca – ou pelo menos, de aparência branca-  em um bairro só de negros. A mulher se apega a bebê e muda seu nome de Fauna para Patricia e explica a menina que ela é mestiça, embora tenha a pele muito clara.

Patricia cresce sempre defendendo a sua origem, mas percebendo que ela é diferente das outras crianças e adolescentes negras que ela conhece. Quando já é adulta, Patricia parte em busca da sua família e entra em contato com a família Hodel. Primeiro ela conversa com seu avô, George Hodel, de quem ela tem uma boa impressão, então com sua avó, Dorothy Anthony. Os dois dizem que não sabem nada de Tamar a tempos, mas que ela é uma mentirosa compulsiva.

Com um pouco mais de pesquisa, Patricia descobre que sua mãe, Tamar vive no Havaí e que já tem outros filhos. Quando viaja para lá, e conversa com Tamar pela primeira vez, ela descobre ainda mais segredos do passado, que afetam diretamente a sua vida.

No entanto, embora Fauna esteja invariavelmente conectada a George Hodel e todas as histórias sinistras que circundam sua pessoa, One Day She’ll Darken é muito mais focado na vida de Fauna e em todos os questionamentos que ela teve durante sua juventude.

One Day She’ll Darken é quase um romance de formação, embora fala sobre uma história real, que acompanha o nascimento, a infância e parte da vida adulta de Fauna, que poderia ser a vida de qualquer outra adolescente nos anos 60, nos Estados Unidos, mas é diferente porque a história dela está cheia de peculiaridades.

A primeira é o fato dela ter passado a vida toda acreditando que era mestiça e o fato dela ter construído toda a sua identidade na sua origem: Fauna se considerava negra e tinha orgulho disso. Ela odiava o seu cabelo liso e a sua pele branca e se perguntava constantemente porque era tão diferente dos outros negros que conhecia. Quando conversa com Tamar, ela descobre que não é filha de um homem negro, mas sim de um rapaz italiano, que sua mãe não lembrava o nome e que Tamar só disse a todos que Fauna era mestiça porque acreditava que o povo negro era superior ao branco, já que tinha sido machucada e decepcionada por todas as pessoas brancas que conhecia.

Tamar também conta que foi obrigada a dar Fauna para adoção pela família, que não a achava muito nova e não queria uma criança, supostamente, mestiça na família.

Fauna então, entra em uma crise de identidade, que já estava presente dentro dela, mas não em tons tão fortes. Ela descobre de uma vez que não é mestiça, e que vem de uma família capaz de cometer atrocidades e de encobertar tudo isso.

Outro ponto interessante na história de Fauna é a relação dela com George Hodel, que era pelos depoimentos de familiares e amigos, um homem terrível, mas com uma história de vida quase fascinante. A dinâmica da família Hodel, comandada com mãos de ferro por George, já é por si só bizarra e assustadora.

Fauna não entra em muitos detalhes sobre a vida de seus antepassados, mas fala brevemente sobre a suposta relação incestuosa de Tamar e George, que chegou a ser julgada, mas que absolveu George, Tamar, no entanto, mantem sua história até hoje e a segunda filha de Tamar, Fauna II (batizada originalmente de Deborah Elizabeth) também diz que foi molestada pelo avô.

Ela também fala sobre como o resto da família pareceu disposta a encobrir os crimes de George, com medo do escândalo que poderia implodir. A mãe de Tamar, Dorothy, não acreditou na filha e constatou que Tamar era uma mentirosa patológica e a madrasta de Tamar, Dorero, embora tenha ajudado a enteada a fugir, não denunciou o que sabia sobre o na época, marido.

Também existe a teoria de que George Hodel foi o assassino de Elizabeth Short, a Dália Negra, o que transformaria essa história em uma trama de crime real. Essa teoria foi cunhada pelo filho de George e Dorero, tio de Fauna e meio irmão de Tamar, Steve Hodel, em seu livro Black Dahlia Avenger: A Genius for Murder: The True Story, mas nunca foi oficialmente provada.

George Hodel de fato, foi um dos suspeitos do caso e se encaixaria no perfil do assassino (um homem branco, com conhecimento médico), mas a polícia nunca investigou essa hipótese a fundo. No entanto, quem se interessa mais por essa parte da história, pode sair decepcionado da leitura, porque isso aparece muito rapidamente, uma vez que não é a ideia de Fauna investigar o passado de seu avô. Uma opção melhor nesse caso, é o livro de Steve, que fala especificamente sobre as suspeitas do filho em relação ao pai.

De uma forma ou de outra, a história da família Hodel, que invariavelmente começa e termina em George, é fascinante e assustadora. Não existe nenhuma certeza sobre os supostos crimes de George – Steve acredita que o pai não só matou Short, como também uma série de outras mulheres e até que ele poderia ser o assassino do Zodíaco – ou sequer sobre o incesto que sua filha e neta juram que ele cometeu, mas é impossível negar que ele era um homem estranho e um tanto quanto sinistro. A trama, que pode ou não ser real, soa como um grande romance noir, que acompanha essa família rica, com um patriarca culto e inteligente, mas que tem segredos terríveis escondidos e onde todo mundo parece disposto a encobrir isso, em troca de que a família se mantenha rica e poderosa.

One Day She’ll Darken no entanto, se preocupa mais em falar da vida de Fauna e dos seus questionamentos, sua vida é importante porque se cruza com essas histórias terríveis, mas o livro não é ideal para quem quer investigar crimes e teorias, a não ser que você queira mesmo se embrenhar no assunto.

A escrita de One Day She’ll Darken não é perfeita e é bem simples, mas é bom ter em mente que Fauna não é uma escritora profissional e que o seu livro vale a pena pela história incomum que retrata e não exatamente pela maneira com que ele é escrito. Por outro lado, a leitura é bem fácil e a sensação que se tem é que estamos ouvindo uma amiga nos contar sobre a sua vida.

One Day She’ll Darken é uma história de formação real, com aspectos bizarros, mas ainda assim, fascinantes, que completam uma trama que talvez seja ainda mais sinistra do que se supõe.

Título original: One Day She’ll Darken

Autor: Fauna Hodel

Gênero: Biografia, Crime Real

Ano de lançamento: 2008

Editora: Graymalkin Media

Número de Páginas: 336

Um comentário em “One Day She’ll Darken, Fauna Hodel”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s