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O Olho Mais Azul, Toni Morrison

“E era fantasia, pois não éramos fortes, apenas agressivos, não éramos livres, meramente autorizadas; não éramos compassivos, éramos polidos; não bons, mas bem-comportados. Cortejávamos a morte a fim de nos chamarmos de corajosos, e escondíamo-nos da vida como ladrões. Substituíamos intelecto por boa gramática; mudávamos os hábitos para simular maturidade; rearranjávamos mentiras e as chamávamos de verdade, vendo no padrão novo de uma ideia antiga. A revelação e a palavra. ”

Pecola Breedlove é uma menina negra e pobre, que vive nos Estados Unidos, na época da grande depressão. Seu pai é violento, sua mãe passa mais tempo cuidado da família branca de quem ela é empregada do que da própria família e todas as crianças consideram Pecola feia, porque sua pele é muito escura e seu cabelo muito crespo. Pecola sonha em ter olhos azuis, que para ela são o sinônimo da beleza.

Quando sua família disfuncional começa a se destruir, Pecola vai passar um tempo na casa de Claudia MacTeer, que parece ser a única pessoa a entender a garota.

O Olho Mais Azul é narrado quase que inteiramente, em primeira pessoa, do ponto de vista de Claudia. Ela e sua família recebem Pecola depois que a menina fica sem casa e não tem para onde ir, mas as meninas já se conhecem anteriormente, uma vez que vivem em uma comunidade pequena.

Pecola vem de uma família disfuncional e que já está praticamente destruída desde o começo da história, seu pai é alcoólatra e violento, sua mãe vive em um mundo de sonhos e quase não presta atenção na família. Pecola é o elo mais fraco da corrente: ela é uma menina negra, de pele bem escura, pobre, sem nenhuma estrutura familiar e que sofre bullying dentro da sua própria comunidade. Pecola é chamada de feia por todos e com o tempo começa a desejar ter olhos azuis, que na sua concepção são o que há de mais bonito, junto com os olhos azuis, Pecola supõe que ela ganharia todos os privilégios de ser uma mulher branca.

A ideia de Toni Morrison ao escrever O Olho Mais Azul é justamente falar sobre o racismo e sobre como ele interfere na autoestima dos negros, nesse caso, Morrison trabalha com duas minorias que sofrem constantes pressões estéticas: Pecola é negra e é uma menina. No livro, a ideia de beleza disseminada pelos personagens está diretamente ligada a pele branca. Pecola quer ter olhos azuis, porque acredita que sendo branca será mais bonita do que sendo negra, e Maureen Peal, uma das colegas de escola de Pecola e Claudia, é considerada a menina mais bonita da escola, porque tem a pele mais clara e olhos verdes.

O livro explora questões interessantes e importantes, como por exemplo, o que pode acontecer com uma menina que enfrenta diariamente uma pressão estética e ideais de beleza que ela nunca vai conseguir cumprir e que constantemente chama a atenção por ser o oposto do que ela deve ser. Pecola é a protagonista e por ser o elo mais fraco de toda essa corrente é quem mais se prejudica e quem mais sente, mas essa pressão, que gera um racismo internalizado, está presente na vida de todos os personagens.

Maureen, que é a garota mais bonita da escola, só o é porque tem a pele mais clara que as outras e, portanto, está mais próxima de ser uma mulher branca, ela se considera superior as outras meninas justamente por isso, Frieda, a irmã mais velha de Claudia, também é muito ligada à sua aparência e tenta se manter sempre perfeita. Cholly, o pai de Pecola, é retratado como violento e terrível, mas quando o livro nos mostra a sua juventude, percebemos que ele também foi humilhado e diminuído ao longo da vida, o que pode de alguma maneira ter contribuído para ele se tornar o homem que é.

O Olho Mais Azul apresenta uma série de personagens negros, que ao longo da vida, foram ensinados que não eram bonitos e a única que parece não ceder a essas pressões é Claudia, que destrói as bonecas brancas que tem, apenas por ódio.

O livro também faz uma análise da família de Pecola, que é um grande fator para que ela se sinta da maneira que ela se sente. Existe um grande contraste entre os Breedlove, que são violentos, e se desprezam e os MacTeer, que apoiam suas filhas e lhes dizem que elas são importantes e é por isso, que também existe uma grande diferença entre a maneira com que Claudia se enxerga e a maneira com que Pecola se enxerga.

O Olho Mais Azul também toca em temas um pouco mais pesados e a história de Pecola não é leve, mas fica claro que a ideia é falar sobre a destruição da autoestima dessa menina, que deseja ser tudo que ela não é e que nunca vai ser.

É óbvio que a discussão que a obra traz à tona é muito importante e que essa questão merece ser discutida, mas o livro é um pouco lento e algumas vezes, confuso. Embora ele seja narrado quase que todo por Claudia, que observa Pecola de uma certa distância, o livro tem momentos onde narra a vida de uma família perfeita imaginaria, que também serve como comparação aos Breedlove e momentos onde o leitor acompanha a juventude dos pais de Pecola e onde compreendemos como e porque eles se tornaram os adultos que são.

O Olho Mais Azul é um livro curto, o que torna a leitura rápida, embora em muitos momentos, a trama seja parada e um pouco devagar. Isso não tira a importância do livro.

Tratando de um tema importante e que talvez não ganhe a divulgação que merece, O Olho Mais Azul traz temas comuns as obras de Morrison e é um livro triste e angustiante, mas também relevante.

Título no Brasil: O Olho Mais Azul

Título Original: The Bluest Eye

Autora: Toni Morrison

Tradução: Manoel Paulo Ferreira

Gênero: Clássico

Ano de lançamento: 1970

Editora: Companhia das Letras

Número de Páginas: 224

Foto: Fernanda Cavalcanti

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