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O Homem no Teto, Jules Feiffer

“Você não pode compor uma boa canção antes dela estar pronta. Para ela ficar pronta, muitas vezes (muitíssimas vezes demais) é preciso você escrever uma porção de canções ruins, o que as pessoas chamam de ‘fracassos’. ‘Fracassos’, repetiu ele franzindo os lábios maliciosamente, ‘pois bem em cada ‘fracasso’ está contido um pouco do sucesso futuro. Porque deixa você mais perto de estar pronto. Pode fracassar, fracassar um pouco mais, fracassar de novo e bifracassar e trifracassar e tetrafracassar. Fracassar de um modo tão terrível que ninguém imagina que você seja capaz de ainda algum dia vir a fazer alguma outra coisa’. Lester fez uma pausa. ‘Mas você, o autor, não pensa assim’”

Jimmy é um garoto tímido, que não se dá bem nos esportes e nem na escola, mas ele tem um talento: ele sabe desenhar. Jimmy começa a escrever histórias em quadrinhos, que fazem sucesso com sua irmã mais velha e com um único garoto da escola, mas Jimmy tem certeza que é isso que ele quer fazer da vida.

Seu pai, no entanto, não acha que esse seja um trabalho de verdade e não leva a sério o que Jimmy faz. Se sentindo desmotivado e quase concordando com a opinião do pai, Jimmy resolve desistir, mas algo maior o puxa de volta.

O Homem no Teto é um livro voltado para o público infanto-juvenil, mas é um trabalho impressionante e passa mensagens que talvez, façam mais sentido para os adultos do que para as crianças. Aqui acompanhamos Jimmy, um garoto profundamente envolvido com os seus próprios quadrinhos, ele não só cria as histórias, como as desenha e que tem um público leitor, composto por sua irmã mais velha e um garoto popular da escola, que Jimmy quer desesperadamente impressionar.

A irmã mais nova de Jimmy gosta de ouvir suas histórias, mas a sua mãe não liga muito para o que ele faz e o pai acha tudo uma perda de tempo. Jimmy tem ainda um outro grande influenciador, o irmão de sua mãe, tio Lester, que como Jimmy também é artista e sonha em escrever um musical para a Broadway. Lester vem tentando a anos, mas nunca consegue vender nada e por isso seu cunhado o considera um “fracasso” e fala isso na frente das crianças.

Quando Jimmy percebe que talvez a arte não possa mesmo ser um “trabalho de verdade”, ele começa a se afastar dos quadrinhos, mas depois de um tempo se sente impelido a voltar para eles. Como todo artista, Jimmy não consegue ficar sem criar e o mesmo acontece com tio Lester, que pode fracassar mil vezes, mas continua tentando mesmo assim.

O interessante de O Homem no Teto é que ele trata de assuntos muito adultos, como todo o questionamento de Jimmy em relação ao que ele quer e ama fazer e o que dá dinheiro e por isso, pode ser considerado um “trabalho de verdade”. Essa é uma questão que as crianças vão compreender, porque Feiffer explica isso de uma maneira que é acessível, mas que vai tocar muito mais os adultos e mais ainda, quem se interessa e está envolvido com arte. Seria muito mais fácil para Jimmy – ou para o tio Lester – simplesmente esquecer suas histórias em quadrinhos e se focar na escola ou nos esportes, mas ele simplesmente não consegue, porque aquilo está dentro dele e faz parte da sua personalidade.

E é aí que o tio Lester se torna um dos personagens mais importantes do livro, como Jimmy, Lester é um artista, que passou a vida toda ouvindo, de várias pessoas, o que Jimmy escuta de seu pai, Lester é, inclusive, considerado um fracasso por boa parte das pessoas que o conhecem e o cunhado sempre se questiona quando que Lester vai esquecer essa mania de escrever para a Broadway e arrumar um “trabalho de verdade”, mas sendo muito mais calejado que Jimmy, ele já não liga. Lestar não se acha um fracasso e entende que um trabalho artístico não surge do dia para a noite, o seu objetivo é escrever um musical para a Broadway e ele vai fazer isso, até que consiga.

O Homem no Teto também construí muito bem a família de Jimmy, composta por ele, seus pais e suas duas irmãs, e consequentemente, a relação entre esses membros. Jimmy é o filho do meio que se sente preso entre uma irmã mais velha mimada, que grita até conseguir o que quer e uma irmã mais nova que exige sua atenção o tempo todo e que não entende que ele tem suas próprias demandas. Sua mãe demonstra um pouco mais de interesse pelos filhos, mas passa tanto tempo trabalhando que faz o que pode, e seu pai, que também trabalha demais e volta para a casa cansado, é um homem amargurado e infeliz, que está, sem nem notar, minando os sonhos e a confiança de Jimmy pouco a pouco.

Jimmy até tenta mostrar seus quadrinhos para o pai, que nunca tem tempo ou interesse, e isso aparece nos quadrinhos do menino, que retratam pais que ligam e apoiam seus filhos, quase como se no seu trabalho, Jimmy projetasse o que ele queria para a sua vida.

O Homem no Teto pauta também a relação da família com Lester. Jimmy e as irmãs se dão bem com o tio e o acham divertido, a mãe está sempre disposta a relevar o que irmão faz, mas o pai não consegue levar seu cunhado a sério e acha que Lester é irresponsável e descuidado. A relação de Jimmy e Lester é ainda mais forte, já que existe uma identificação entre os dois, Lester estimula o sobrinho a escrever, porque entende o que Jimmy sente.

Além da trama, escrita de forma narrativa, o livro tem alguns dos quadrinhos de Jimmy, que fazem com que o leitor se aproxime ainda mais do protagonista.

A leitura é simples, porque afinal, esse é um livro voltado para crianças e adolescentes, então não existe nenhuma escrita rebuscada ou difícil, mas isso nem se faz necessário, porque O Homem no Teto já passa uma mensagem tão bonita sobre fazer o que se ama e se dedicar a isso, que só por isso já é um ótimo livro. A obra é compreensível para as crianças, mas de alguma maneira, fala mais com os adultos, que entendem o que Jimmy está sentindo.

O livro é curto, bem escrito e a trama é muito instigante, por isso, a leitura é rápida e muito prazerosa.

O Homem no Teto é um livro para o público infanto-juvenil, mas traz ideias e mensagens muito mais adultas do que muitos livros voltados para esse público e quando se passa por cima do preconceito, é possível lê-lo não só como uma ótima diversão, mas também como uma lição de vida.

Título no Brasil: O Homem no Teto

Título Original: The Man in the Ceiling

Autor: Jules Feiffer

Tradução: Carlos Sussekind

Gênero: Young Adult

Ano de lançamento: 1993

Editora: Cia das Letras

Número de Páginas: 200

Foto: Fernanda Cavalcanti

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