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Minha Sombria Vanessa, Kate Elizabeth Russell

“- Porque se não for uma história de amor, então o que é?”.

O ano é 2000 e Vanessa Wye é uma adolescente de dezessete anos que conseguiu uma bolsa em uma cara escola interna. Ela é solitária e tímida, mas diz não se importar com isso. Vanessa sonha em ser escritora e um dia, seu professor de literatura, Jacob Strane, parece nota-la e começa a apreciar o que ela escreve.

Vanessa e Strane, que tem quarenta e dois anos, começam uma amizade, onde ele lhe empresta livros e lê os poemas que ela escreve, mas logo o relacionamento se desenvolve para um relacionamento amoroso e sexual.

Em 2017, Vanessa já é uma mulher adulta, que ainda mantém contato com Strane, quando descobre que ele foi denunciado por outra estudante, que diz ter sido abusada pelo professor. Uma jornalista entra em contato com Vanessa perguntando se ela também gostaria de contar a sua história com Strane, mas Vanessa não se considera uma vítima e tem certeza que ela manteve um caso completamente consensual com ele.

Quando ela começa a revisitar o passado, ela também passa a se perguntar se suas lembranças batem com a realidade e o que de fato aconteceu entre ela e seu professor.

Minha Sombria Vanessa se define como um Lolita, que narra a história do ponto de vista da vítima, mas obviamente existem algumas diferenças entre os dois livros. Aqui acompanhamos Vanessa, filha de um casal de classe média baixa, que deseja ser escritora e que conseguiu uma bolsa para uma escola interna de classe alta. Quando o livro começa, Vanessa já tem dezessete anos e está começando o seu segundo ano na escola interna, no ano anterior, ela rompeu com a única amiga que tinha, porque a garota arrumou um namorado e deixou a amiga a escanteio, por isso, Vanessa começa esse ano, com um quarto solo, e sem nenhum amigo na escola.

Vanessa é uma garota solitária por natureza, que prefere passar seu tempo escrevendo e lendo, mas ela logo chama a atenção do professor de literatura, Jacob Strane, que elogia o que ela escreve e começa a lhe emprestar alguns livros – inclusive Lolita, de Vladimir Nabokov – e a relação dos dois, que começa como amizade, logo passa a ser romântica e não muito depois, sexual.

Dezoito anos depois, Vanessa é uma mulher adulta, que trabalha em um hotel, e ainda mantém contato com Strane, os dois, no entanto, não tem mais nenhuma relação sexual, como a própria Vanessa comenta, ele perdeu o interesse por ela quando ela chegou perto dos vinte e cinco anos, quando ela descobre que uma ex-aluna de Strane está o acusando de abuso sexual. Vanessa obviamente considera tudo uma bobagem, já que a acusação nem especifica exatamente o que aconteceu entre os dois e ela confia em Strane e sabe que ele jamais faria isso. Mais do que isso, ela considera que a relação que ela teve com Strane foi completamente consensual. É a partir da denúncia da outra mulher que Vanessa começa a relembrar seu passado e se questionar sobre o que realmente aconteceu.

Minha Sombria Vanessa é narrado em primeira pessoa, pela própria Vanessa e os capítulos intercalam entre o presente, onde ela fica sabendo das acusações e o passado, onde ela narra o caso entre ela e Strane. A técnica é bem interessante, porque coloca o autor de frente as lembranças de Vanessa, ao mesmo tempo que nos mostra o pensamento e as ações da Vanessa adulta. Existe também uma clara evolução da protagonista, a Vanessa adolescente é tímida e solitária, mas é relativamente esperançosa e acredita na sua habilidade, a Vanessa adulta já não é mais tão tímida, mas é uma mulher sem esperanças, que está claramente traumatizada, o leitor percebe, mesmo antes de ler os detalhes sobre o caso de Vanessa e Strane, que ela é uma pessoa destruída.

Ai que outra questão do livro surge à tona, Vanessa considera sua relação com Strane um “namoro”, mesmo depois que a acusação contra ele aparece, mas para o leitor fica claro que foi um abuso. As lembranças de Vanessa descrevem todo o relacionamento dos dois, desde o momento em que Strane a notou pela primeira vez, e ela narra que muitas das vezes, o homem esperou que ela tomasse a iniciativa, mesmo que ele tivesse dado a ideia, por exemplo, quando os dois se beijam pela primeira vez, é Vanessa que o beija, mas isso só acontece depois que Strane diz que gostaria muito de beija-la.

O leitor já entra no livro sabendo que vai ler uma história de abuso e pedofilia, porque sabemos desde o começo que Strane é um homem adulto e Vanessa uma adolescente de dezessete anos, o que é apresentado por Vanessa até pode parecer um romance idílico, principalmente pelos olhos dela, mas qualquer pessoa adulta que tenha acesso ao livro consegue perceber que Strane mente, seduz e convence Vanessa a fazer coisas que ela não quer. É fácil notar também que ele é um pedófilo, mesmo que essa palavra nunca seja dita, já que ele pede que Vanessa se comporte e se vista, quando eles estão juntos, como uma criança e que ela diz que ele perdeu o interesse por ela quando ela se tornou adulta.

A ideia de retratar essa relação do ponto de vista dela, que acredita que viveu uma grande história de amor, é bem interessante, porque mostra que Strane de fato a convenceu de que o que os dois tinham era um relacionamento comum, que só não era aceito pela sociedade, e que quando somos mais novos nos achamos muito mais adultos do que realmente somos. Vanessa é uma jovem inteligente, mas que cai na lábia de Strane rapidamente e que passa sua vida toda acreditando nesse homem. É possível ver como o comportamento de Strane pode soar romântico para Vanessa, uma menina solitária de dezessete anos, que se sente, repentinamente, notada, valorizada e amada por um homem mais velho, mas o tom predatório das ações de Strane são ainda maiores e saltam aos olhos do leitor, isso fica claro, por exemplo, na primeira vez que os dois fazem sexo – que é também a primeira vez de Vanessa -, Vanessa obviamente não quer fazer sexo com Strane, no entanto, ele a convence a fazer e ela também não gosta da experiência e mesmo assim, continua mantendo relações sexuais com ele durante bastante tempo. O leitor percebe que aquela é uma cena de estupro, mesmo que ela não seja especificamente violenta.

E é justamente isso que impede Vanessa de perceber que Strane é um predador e que ela foi vítima de abuso: ele não é um homem violento e em vários momentos, ele é até muito gentil.

O livro é diferente de Lolita nesse aspecto, já que mesmo que Vanessa ache que viveu uma história de amor, nós percebemos que não, em Lolita, o leitor compra tudo que Humbert, que é um pedófilo e está abusando de sua enteada, fala, já que a prosa é narrada do ponto de vista dele e ele pinta Lolita como uma “sedutora”. Aqui, Vanessa pode até achar que Strane é um príncipe encantado, mas em momento nenhum, o leitor compra isso. Talvez a ideia seja essa mesma, que o leitor saiba mais do que Vanessa, que é imcapaz de entender o que aconteceu com ela, como eventualmente acontece com vítimas de abuso.

Vanessa é uma personagem frustrante em muitos momentos, justamente porque ela não vê a história da mesma maneira que nós vemos, e por que ela, passa boa parte do tempo tentando nos convencer – e automaticamente se convencer – que Strane não é um predador e que o relacionamento dos dois foi romântico e bonito, mas de uma certa maneira, ela reflete os estágios de uma pessoa aceitando que foi vítima de abuso.

É bom ressaltar também que Minha Sombria Vanessa é um livro pesado, não só pelo seu tema, mas também porque tem cenas explicitas de sexo, que envolvem Vanessa e Strane e muitas vezes, essas cenas são abusivas e muito próximas do estupro. A leitura, no entanto, é muito prazerosa, a prosa de Kate Elizabeth Russell é ótima e é muito fácil se prender na trama, e ler sem parar.

Minha Sombria Vanessa trata de temas pesados e tem cenas incomodas, mas também passa uma mensagem importante e dá voz a uma personagem que não teve voz mesmo durante a sua própria história.

Título no Brasil: Minha Sombria Vanessa

Título original: My Dark Vanessa

Autora: Kate Elizabeth Russell

Tradução: Fernanda Abreu

Gênero: Contemporâneo, Thriller

Ano de lançamento: 2020

Editora: Intrínseca

Número de Páginas: 432

Foto: Fernanda Cavalcanti

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