Adaptações, filmes

Filme: Cinderela, 2021

Ella (Camila Cabello), chamada por sua madrasta (Idina Menzel) e suas filhas (Maddie Baillio e Charlotte Spencer) de Cinderela, porque sua pele está sempre coberta de cinzas, vive no porão da casa, enquanto sonha em abrir seu próprio negócio de vestidos.

Durante um discurso do rei (Pierce Brosnan), ela chama a atenção do Príncipe Robert (Nicholas Galitzine), que depois a procura sem contar quem ele realmente é e compra um dos vestidos que Ella costurou. Ele promete que se ela for ao baile, onde Robert deve escolher uma esposa, ele vai apresenta-la para pessoas influentes que podem se interessar pelo que Ella faz.

Na noite do baile, no entanto, Vivian, a madrasta de Ella, a proíbe de ir e destrói o vestido que ela pretendia usar. É então, que surges seu Fado Madrinho (Billy Porter), que vai ajudá-la a realizar seus sonhos.

Cinderela é uma versão modernizada do conto de fadas de mesmo nome.

Cinderela é possivelmente um dos contos de fadas mais famosos, é quase impossível encontrar alguém que não conheça pelo menos o básico da história: uma órfã, vai ao baile, encanta o príncipe e perde o sapatinho. Mas também é por isso que existem diversas versões do conto, tanto na literatura, quanto no cinema e em função disso, fica um pouco difícil inovar quando se pensa em mais uma adaptação de Cinderela.

Cinderela até se sai bem nesse quesito, a ideia do longa parece ser ir contra a maioria das coisas que o público pensa quando pensa em Cinderela. Então, a protagonista é uma mulher latina em contraste a ideia da Cinderela loira de olhos azuis que a Disney pré-estabeleceu, ela não está interessada em casamento, mas sim em ter o seu próprio negócio, a fada madrinha é um homem negro e não tem exatamente um gênero definido e nem a madrasta é tão ruim quanto parece inicialmente.

Todas as mudanças têm como intenção não só inovar, como também conversar com o público dos dias de hoje, que assiste o surgimento de uma possível quarta onda do feminino, que exige personagens femininas completas, que pensem em sua carreira e seus sonhos, antes de pensarem em namoro e casamento, e que quer personagens diversos, com etnias e sexualidades diferentes. Claro que todas essas mudanças podem chatear quem quer assistir uma versão mais clássica do conto de fadas, mas contos de fadas não tem versões oficiais e por isso, é impossível dizer exatamente o que é fiel a obra ou não e mais do que isso, existem uma série de outros filmes bem fieis as versões mais famosas do conto – já que a versão mais antiga é bem mais sanguinária e raramente recebe qualquer adaptação -. É exatamente essa a graça e a beleza de histórias atemporais como os contos de fadas: eles conversam com todas as épocas e podem ser adaptados sem que se perca sua mensagem.

O filme mantém algumas ideias clássicas da obra, Cinderela ainda vai ao baile, ela ainda recebe uma transformação do Fado Madrinho e ainda esquece seu sapatinho de cristal, mas para que todas as adaptações funcionem, o longa também precisa de mudanças um pouco menores. O longa dá, por exemplo, uma justificativa para uma parte da trama que só funciona em um conto de fada: como a madrasta e as suas filhas não reconhecem Cinderela no baile, uma vez que ela só está mais arrumada e com um vestido novo. Aqui, o Fado Madrinho coloca um feitiço em Cinderela que permite que só Robert saiba quem ela é, portanto, ela passa inócua de sua família no baile.

É interessante que o filme se proponha a uma série de mudanças, e que possa conversar com um público jovem, especialmente o feminino, que já espera mais do que um príncipe encantado em um conto de fadas. Cinderela é um filme que apela para o feminismo, embora não mergulhe totalmente nele e apresenta uma versão bem higienizada do movimento. Cinderela não quer se casar, ela quer abrir seu próprio negócio, ela vai ao baile com a intenção de vender seus vestidos e ela até se apaixona pelo príncipe – ainda de maneira instantânea, como em um conto de fadas tradicional -, mas ela não se sente disposta a abandonar seus sonhos para sentar em um trono e usar uma coroa.

A irmã de Robert, Gwen (Tallulah Greive), no entanto, mostra desde o começo uma vontade enorme de herdar o trono de seu pai e ideias modernas e atuais para implantar no reino. Uma disposição que seu irmão claramente não tem. A mensagem certamente é interessante, o que está em jogo aqui, tanto para Cinderela, quanto para Gwen não é um casamento e a dependência eterna de um homem, mas sim, um futuro que elas podem construírem por elas mesmas. Claro que o filme não discute essas questões mais a fundo, mas talvez esse nem seja o papel dele, já que Cinderela é um filme de comédia juvenil e de qualquer maneira, assistimos um avanço em relação a outros filmes inspirados no conto, onde tudo que Cinderela quer é se casar e viver feliz para sempre.

A ideia do Fado Madrinho também é um ponto alto do filme. O personagem é interpretado por um homem, mas o filme não determina seu gênero em momento algum. A escolha do ator é interessante, Billy Porter não só é um homem negro, gay assumido, como também é conhecido por interpretar uma drag queen no musical Kinky Boots, na Broadway, e por aparecer em uma série de eventos e tapetes vermelhos usando roupas tradicionalmente femininas. O papel do Fado Madrinho parece ter sido pensado especialmente para Porter. Mais uma vez, Cinderela não discute questões de gênero ou de sexualidade, mas é interessante que dê essa perspectiva diferente de uma personagem que é tão famosa que inclusive ultrapassa o universo dos contos de fadas.

Cinderela é um filme de comédia musical e é na realidade, um longa que não se leva a sério, mais ou menos como acontece com Shrek, outro filme que faz piadas com o universo dos contos de fadas. As piadas de Cinderela são bem simples, bem mais bobinhas e bem mais inocentes, mas o filme é divertidinho, ele até, faz piadas com o gênero musical, que funcionam.

Um dos grandes acertos do filme é o uso de músicas pop na sua trilha sonora. Nesse sentido, Cinderela funciona mais ou menos como Moulin Rouge – Amor em Vermelho, que usa músicas pop, que não existiam na época em que o filme se passa, como parte da sua trama. É sempre bom lembrar que Cinderela é um filme musical e que nesse gênero, as músicas funcionam quase como diálogos e servem para que os personagens demonstrem seus sentimentos, então, quando os personagens do filme cantam músicas modernas, eles não estão de fato cantando essas músicas, mas sim, colocando seus sentimentos e pensamentos para fora.

Entre as músicas que fazem parte da trilha sonora estão Rhythm Nation, de Janet Jackson, Somebody to Love, do Queen, Material Girl, da Madonna, Whatta Man, do Salt-N-Pepa ft. En Vogue e a breguissima, Perfect, de Ed Sheeran. Além de Million To One, escrita especialmente para o filme. O filme tem números musicais bem interessantes e as músicas não só são bem escolhidas e alguns casos bem remixadas, como também combinam com a história.

O filme também tem figurinos lindos, que fazem referência a uma série de épocas e períodos diferentes, mas sempre é importante ressaltar que Cinderela não determina em que época se passa, e que os contos de fadas se passam em um universo exclusivo e especifico, portanto, também é impossível dizer qual o tipo de roupa que se usa nesse universo. Tudo no filme é fantástico, e o figurino se encaixa nessa ideia também. Mas ele é colorido, chamativo e bonito. Quando as roupas são colocadas ao lado dos cenários, temos ótimas composições e uma fotografia bonita, instigante e atraente.  

A protagonista Camila Cabello não é atriz, mas se sai bem, é fácil simpatizar com Ella, e o resto do elenco parece disposto a entrar nessa fantasia meio cômica. Idina Menzel poderia ter mais tempo de tela, mas está sempre bem quando aparece, já Pierce Brosnan, interpreta um rei bonachão, e de fato entra no personagem e Billy Porter rouba boa parte das cenas em que aparece.

Cinderela certamente não é nenhuma obra magnifica do cinema, mas é um filme divertido e colorido, que pode chamar a atenção não só de crianças, como também de adultos interessados nos temas que o filme aborda. Mais importante que isso, o filme prova que os contos de fadas e suas mensagens são mesmo atemporais, mas que suas adaptações podem ser um espelho exato da época em que elas foram produzidas.

Título no Brasil: Cinderela

Título original: Cinderella

Direção: Kay Cannon

Gênero: Fantasia, Comédia, Romance

Nacionalidade: Reino Unido

Ano: 2021

Duração: 1h 53min

Elenco: Camila Cabello, Nicholas Galitzine, Idina Menzel, Pierce Brosnan, Minnie Driver

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