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Recordações da Casa dos Mortos, Fiódor Dostoiévski

“E o que não dará um homem pela liberdade? Qual o milionário que, se vendo, com uma corda passada no pescoço, não daria todos os seus milhões por uma imediata passagem de ar pela garganta adentro?”.

Aleksandr Petrovich Goryanchikov é deportado para uma prisão na Sibéria e condenado a dez anos de trabalhos forçados por assassinar sua esposa. No começo, ele sente dificuldade em viver lá, porque é um nobre e é, inclusive, rechaçado pelos outros prisioneiros.

Aos poucos ele se acostuma e começa a narrar o que acontece no local, ao mesmo tempo que conta a história de outros detentos e reflete sobre o crime, a punição e a maldade humana.

Recordações da Casa dos Mortos é na realidade, um romance semi-autobiográfico, onde Dostoevsky narra o tempo que ele próprio passou preso na Sibéria, por motivos políticos. O protagonista Aleksandr é uma espécie de alter ego do autor, as experiências por ele narradas são próximas do que ele mesmo viu e as histórias dos outros prisioneiros são inspiradas nas vidas de prisioneiros reais que ele conheceu.

O livro então, acompanha a prisão de Aleksandr, que demora a se acostumar com o local, mas vai aos poucos se aproximando de outras pessoas, sua condição é bem parecida com a de Dostoevsky, que também era um nobre e passou a conviver com prisioneiros políticos, criminosos comuns e pessoas que cometeram crimes hediondos.

A ideia de Recordações da Casa dos Mortos não é apresentar exatamente uma história linear, não sabemos por exemplo, que acontecimento se deu antes e qual se deu depois, a partir do momento que o narrador entra na prisão, é quase como se Aleksandr contasse uma série de causos e histórias sobre o local, os guardas, as punições e os outros detentos, ao mesmo tempo que reflete sobre a sua própria prisão e sobre a punição que a sociedade impõe.

Justamente por isso, a obra pode ser um pouco confusa, principalmente para quem não está acostumado com livro não lineares, o leitor demora um tempo para se acostumar com esse aspecto e também com a linguagem do autor, que é requintada, cheia de poesia e muito bonita, mas em muitos sentidos, complexa.

Recordações da Casa dos Mortos também demora um tempo para engatar, o começo, por exemplo, é um pouco mais lento que o resto do livro e o leitor só consegue pegar no tranco mesmo depois da página 100, o que pode ser um pouco frustrante. No entanto, uma vez que se supera essa série de desafios, Recordações da Casa dos Mortos se torna uma leitura prazerosa, que nos prende nas histórias não só do narrador, como também dos outros prisioneiros, que as vezes, ganham até seus próprios capítulos.

A leitura ainda é complexa, mas o livro é muito bem escrito e a linguagem de Dostoevsky é de fato, magistral e vale a pena encarar as dificuldades que se apresentam. O livro tem ainda muitos personagens, que aparecem e desaparecem, o que parece natural, afinal Aleksandr conta as vidas de vários prisioneiros de uma cadeia muito grande, e o leitor brasileiro pode ter dificuldades com os nomes, mas nesse sentido, a falta de linearidade ajuda, já que alguns personagens aparecem apenas uma vez e depois não retornam.

É certo que Recordações da Casa dos Mortos é uma obra prima, não só porque sua linguagem é ótima e porque a prosa de Dostoevsky é cuidadosa e muito bem trabalhada, mas também porque retrata em primeira mão o período que o autor estava preso, mesmo que faça isso através da ficção, e coloca o leitor dentro de uma prisão da Sibéria dos anos 1800, é um pouco difícil de entrar na trama, mas quando o leitor se abre para ela e se deixa levar, ele se torna muito interessante.

O livro tem uma leitura lenta e complexa, e pode desanimar um pouco o leitor no começo, mas certamente vai agradar muito quem tiver a paciência para lê-lo até o final.

Título no Brasil: Recordações da Casa dos Mortos

Título original: Записки из Мёртвого дома, Zapiski iz Myortvovo doma

Autor: Fiódor Dostoiévski

Tradução: José Geraldo Vieira

Gênero: Clássico

Ano de lançamento: 1860–1862

Editora: Martin Claret

Número de Páginas: 320

Foto: Fernanda Cavalcanti

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