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A Filha Perdida, Elena Ferrante

“O corpo de uma mulher faz mil coisas diferentes, dá duro, corre, estuda, fantasia, inventa, se esgota e, enquanto isso os seios crescem, os lábios do sexo incham, a carne pulsa com uma vida redonda que é sua, a sua vida, mas que empurra você para longe, não lhe dá atenção, embora habite sua barriga, alegre e pesado, desfrutada como um impulso voraz e, todavia, repulsiva como o enxerto de um inseto venenoso em uma veia”.

Leda é uma mulher divorciada, que pela primeira vez na vida, se vê sozinha, depois que suas duas filhas já adultas, Bianca e Marta, se mudam para o Canadá com o pai. Ela viaja para o litoral sul da Itália, e logo presta atenção em uma família napolitana barulhenta, que faz ela se lembrar da própria família.

Quem mais lhe chama atenção, no entanto, é Nina, uma jovem mãe, que parece completamente encantada com a filha, Elena. A menina anda para cima e para baixo com uma boneca, que até Nina parece tratar como parte da família.

Leda e Nina se aproximam quando a boneca de Elena desaparece, e Leda percebe que nem tudo na vida de Nina é tão perfeito como ela imagina.

A Filha Perdida, como é comum em vários trabalhos de Elena Ferrante, é um livro que fala sobre personagens femininas e que fala de questões que dizem respeito a vida das mulheres. Aqui a protagonista é Leda, uma mulher de meia idade, divorciada, que pela primeira vez em muito tempo, tira férias sozinha, sem as filhas ou o ex-marido, na sua viagem, ela conhece Nina e sua filha Elena. A presença de personagens femininas no livro é quase ostensiva: Leda, Nina, Elena, as duas filhas de Leda, a cunhada de Nina, Rosaria e claro, a boneca de Elena.

É natural que assim seja, já que o livro pretende tratar de um assunto que diz respeito as mulheres: a maternidade. Leda é mãe de duas filhas adultas, que no começo, ela diz sentir falta, mas com o tempo percebemos que Leda passou a vida toda se sentindo pressionada para ter filhos e que não foi muito feliz criando suas filhas, uma vez que teve que abandonar seus estudos para se dedicar as meninas, enquanto a vida de seu ex-marido pouco foi alterada. Nina, que Leda vê como modelo de maternidade, já que é uma mulher nova, que se mostra completamente devotada a Elena, logo vai mostrando outra faceta, que é tão cansada quanto a de Leda.

Rosario, a cunhada, está grávida e imensamente feliz porque finalmente conseguiu engravidar depois de anos tentando, ela não consegue ver o que as duas mulheres que são mães já veem, que a maternidade é difícil, complicada e cansativa. Até Elena se comporta como uma mãe para a sua boneca, ela repete os gestos da mãe, cuida da boneca, dá banho, troca, alimenta, amamenta e fica desesperada quando a boneca desaparece misteriosamente na praia.

A Filha Perdida tem como trama o que acontece com Leda enquanto ela passa um tempo no litoral, e poucos acontecimentos se dão, no entanto, o que Ferrante monta aqui é bem mais interessante. O livro é uma análise profunda sobre a maternidade e sobre a obrigatoriedade dela que é imposta constantemente as mulheres. Leda, que agora é uma mulher despreocupada, não parece talhada para a maternidade e o fato dela ter tido duas filhas, de quem ela as vezes nem consegue apontar qualidades, soa como maternidade compulsória.

Nina que parece a mãe ideal, também conta seus segredos para Leda e muitos deles envolvem a frustração que ela sente com a filha Elena e os comentários de que ele tinha só dezenove anos quando Elena nasceu fazem o leitor pensar que, de certa maneira, ela se arrepende de não ter esperado mais.

Os personagens masculinos são poucos e não muito profundos, a autora não parece interessada em narrar suas experiências, mas sim mostrar como eles afetam na vida das mulheres que os rodeiam. O ex-marido de Leda é apenas citado, o marido de Nina aparece de vez em quando e sua presença mais parece melindrar a esposa do que agradá-la. Mas o comportamento dos dois homens só parece reforçar o fato de que são as mulheres, que geralmente, estão presas a criação de seus filhos.

A Filha Perdida não é um livro que é, explicitamente, contra a maternidade, mesmo porque a questão é um pouco mais profunda do que isso. A obra fala sobre o que essas mulheres abrem mão para criar suas filhas, que eventualmente também renunciarão a outras coisas, para criar seus próprios filhos.

Leda, a protagonista, pode não agradar todos os leitores, porque em muitos momentos ela soa egoísta, mas não porque ela de fato seja egoísta, mas porque fomos ensinados que todas as mulheres nascem dotadas de um instinto materno e de uma vontade de ser mãe e que todas elas devem amar seus filhos acima de tudo e concordar que a partir do dia que eles nascem, eles se tornam a coisa mais importante da vida delas. Não é o que acontece com Leda, que agora que suas filhas são adultas, se questiona se o seu doutorado não era mais importante, para ela, do que suas duas filhas. Leda pode soar como uma mãe monstro, mas ninguém questiona, por exemplo, o fato do ex-marido de Leda seguir com sua carreira mesmo depois do nascimento das meninas.

O fato de Leda ser humana a ponto de admitir que talvez não tenha feito a escolha certa quando foi mãe e que talvez aquilo não era para ela, que ela preferia ter se tornado doutora, é um dos pontos mais interessantes do livro, mas que também pode reduzir o público que gosta da obra, afinal, o dilema de Nina e Leda faz muito sentido para as mulheres, que ainda hoje precisam escolher entre carreira e filhos, mas nem tanto para os homens, que a anos podem ter filhos e uma carreira brilhante, já que suas esposas normalmente se ocupam dos filhos.

A trama de A Filha Perdida não é especificamente empolgante, mas essa nem parece ser a ideia mesma, o livro é mais focado nos sentimentos de Leda e mais tarde, Nina, mas a leitura prende e o fato do livro ser curto torna a experiência ainda mais prazerosa.

A Filha Perdida pode não ser um livro para todos, mas certamente é uma obra que aborda temas incomuns e tabus, que precisam vir à tona com cada vez mais frequência.

Título no Brasil: A Filha Perdida

Título original: La figlia oscura

Autora: Elena Ferrante

Tradução: Marcello Lino

Gênero: Contemporâneo

Ano de lançamento: 2006

Editora: Intrínseca

Número de Páginas: 176

Foto: Fernanda Cavalcanti

2 comentários em “A Filha Perdida, Elena Ferrante”

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