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Peter Pan, J. M. Barrie

Wendy Darling e seus irmãos João e Miguel, vivem uma vida tranquila em Londres, até que Peter Pan, um garoto que nunca cresce, aparece pela janela dos irmãos e os convida para uma viagem até a Terra do Nunca.

A Terra do Nunca, que vive através do próprio Peter, é um lugar fantástico habitado por várias pessoas e criaturas diferentes, entre eles os Meninos Perdidos, que obedecem a Peter em quase todas as situações, a fada Sininho, melhor amiga do menino e o Capitão Gancho, que jurou se vingar de Peter, depois que ele cortou fora sua mão e a jogou para um crocodilo.

Embora o local pareça incrível e os irmãos Darling estejam completamente fascinados por Peter, Wendy logo começa a perceber que nem tudo é a maravilha que parece e passa a sentir cada vez mais falta de seus pais, mesmo que os esteja esquecendo aos poucos.

Peter Pan apareceu pela primeira na peça Peter Pan, or The Boy Who Wouldn’t Grow Up, de 1904, e mais tarde, em uma história original chamada Peter Pan in Kensington Gardens, de 1906, onde Peter, ainda bebê, foge de casa e vai viver no parque Kensington Gardens, em Londres. Barrie também usou o personagem em When Wendy Grew Up – An Afterthought, de 1908, onde imagina o que teria acontecido com Wendy depois que ela voltou para casa, até que em 1911, ele transformou sua peça em um romance batizado de Peter Pan e Wendy, que mais tarde, ficou conhecido apenas como Peter Pan.

Peter Pan é possivelmente uma das histórias mais famosas da literatura, uma vez que ela foi reimaginada e reinterpretada em outros livros, peças, filmes, séries e musicais, e completa a trilogia dos contos de fadas modernos ao lado de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll e O Mágico de Oz, de L. Frank Baum. Peter Pan certamente tem muitos elementos de contos de fadas, como as criaturas que habitam a Terra do Nunca, a própria existência de Peter, que fugiu de casa ainda bebê e conseguiu sobreviver, mas ainda assim, não cresce, e outros aspectos um tanto surreais, como o fato dos irmãos Darling terem como babá uma cachorra, mas diferente dos contos de fadas mais clássicos, Peter Pan se passa no mundo real e tem muitos elementos reais e modernos. O livro se passa em Londres e o pai dos irmãos Darling trabalha em um banco, o que deixa essa trama muito mais próxima de nós e de qualquer pessoa que vive em uma cidade grande.

Especula-se que a inspiração de Barrie para criar Peter Pan venha da família de Sylvia Davies, uma amiga do autor e de seu filho, Peter Llewelyn Davies. Sylvia morreu de câncer em 1910 e Barrie foi nomeado cotutor dos filhos dela – além de Peter, Sylvia era mãe de Michael, George, Nicholas e Jack -. Outra inspiração pode ter sido o irmão de Barrie, David que morreu em um acidente em uma pista de patinação de gelo quando tinha treze anos, um dia antes de completar quatorze. Barrie e a mãe se consolaram com a ideia de que David continuaria jovem para sempre, que é a premissa básica de Peter Pan. O sobrenome de Peter muito provavelmente é uma referência ao deus Pan, que na mitologia grega é o deus dos bosques.

O livro leva o nome de Peter Pan, mas começamos acompanhando a vida da família Darling e mais especificamente da filha mais velha, Wendy, que é dedicada e cuidadosa, e tem o costume de contar histórias muito criativas para os irmãos mais novos. Peter uma noite, perde sua sombra no quarto dos irmãos e quando retorna para recuperá-la, Wendy a costura para ele e logo, ele a convida para ir com ele a Terra do Nunca e se tornar “mãe” dos Meninos Perdidos, Wendy aceita, mas pede que Peter leve João e Miguel também.

É óbvio que as partes que se passam na Terra do Nunca são as partes mais interessantes do livro, porque a ideia da Terra do Nunca é muito interessante e muito bem pensada. O local vive através de Peter, portanto, quando ele está longe, a Terra do Nunca dorme e quando ele retorna, ela acorda e os conflitos entre os Meninos Perdidos, os piratas e os povos indígenas reacendem. Para além disso, a Terra do Nunca é diferente para cada criança que chega lá, já que ela depende da imaginação da criança em questão. A ideia de que essas crianças que não têm mais de doze anos podem viver aventuras muito perigosas, e sempre escaparem dela, também é ótima.

Por isso, Peter Pan é um livro que funciona muito bem com o público infantil, ele foi, afinal de contas, pensado para essa parcela da população, mas curiosamente, ele também é uma boa pedida para adultos, uma vez que trata de temas um pouco mais sérios e mais profundos.

O primeiro de todos é, claro, o fato de Peter não querer crescer e expressar com todas as palavras que ele não tem interesse nenhum em ser adulto. Quando ele e Wendy se conhecem existe uma clara implicação de que Wendy tem uma pequena queda por Peter, e ela tenta a todo custo torná-lo alguém mais sério e mais responsável, Peter, no entanto, parece completamente incapaz disso, e inclusive, não demonstra nutrir sentimentos românticos por Wendy- ou por Sininho e pela Princesa Tigrinha, que também parecem interessadas nele -. A recusa de Peter em crescer é também uma recusa de assumir responsabilidades que vem com a vida adulta, já que enquanto ele se mantém criança, ele pode continuar voando pelo bosque, brincando pela Terra do Nunca, sem se preocupar com o futuro. Enquanto Wendy está na Terra do Nunca, ela tem a função de ser “mãe” de Peter, dos Meninos Perdidos e de seus dois irmãos, e, portanto, é obrigada a se preocupar com as questões mais práticas e mais sérias, ela precisa costurar as roupas dos meninos, colocá-los para dormir, fazer comida e mandá-los se lavarem. A insinuação é de que Wendy, que já era bem mais madura que todos os personagens desde o começo da história, está crescendo o tempo todo, enquanto Peter se recusa a isso, o que torna qualquer relação entre os dois, impossível.

Outra questão bem instigante do livro é que, embora Peter tenha sido descrito, principalmente em trabalhos posteriores inspirados na obra de Barrie, como um mocinho, cujo único erro e ter um espírito livre, na realidade, o personagem tem uma personalidade bem autoritária e tons que podem facilmente se tornarem vilanescos. A ideia, por exemplo, de que ele rouba crianças que estão dormindo nos seus quartos e as leva para a Terra do Nunca, é bem assustadora, também fica subentendido que os Meninos que crescem são banidos da Terra do Nunca, só não fica claro se Peter os expulsa ou simplesmente os mata. Para além disso, Peter conduz a Terra do Nunca com mãos de ferro, praticamente todos os habitantes do local precisam se submeter as vontades dele, que na maioria das vezes, são absurdas. A personalidade de Peter também não é das melhores, ele trata Wendy mal e esquece das coisas e das pessoas com facilidade, por isso, antes mesmo dos irmãos Darling chegarem à Terra do Nunca, ele já tem lapsos de memórias onde não reconhece nem Wendy, nem João e nem Miguel. Mas é justamente isso que faz de Peter um personagem que foi representado tantas vezes depois e que virou uma espécie de ícone, cada pessoa pode ter uma interpretação diferente, já que ele não faz nada que seja completamente mal.

Claro que o livro tem algumas questões machistas, como por exemplo, o fato dele insinuar que as meninas são sim mais delicadas que os meninos e de Peter achar que Wendy tem obrigação de cuidar de todos eles, como uma mãe, afinal, ela é uma garota. Em vários momentos, a narração dá a entender que Wendy é organizada e dedicada por que é uma garota, e que o dever dela é ficar em casa cozinhando, costurando e cuidando deles, enquanto os meninos saem em várias aventuras, mas são questões que podem ser relevadas quando pensamos que Peter Pan foi publicado em 1911.

A leitura de Peter Pan é bem fácil, a escrita é bem infantil e o narrador – que nunca sabemos exatamente quem é – conversa com os leitores, de maneira que nos sentimos ainda mais próximos da história, por isso, a obra tem uma leitura bem rápida, e divertida.

É impossível negar que Peter Pan é uma fábula bonita e fantástica, mas é interessante notar que o livro pode ser visto apenas como uma aventura infantil sobre crianças vivendo sozinhas pela primeira vez e fazendo o que bem entendem, como uma história sobre a dificuldade de se tornar adulto e assumir responsabilidades e ainda sobre os problemas de idolatrar uma figura que é, em muitos sentidos, ditatorial e é por isso que Peter Pan é um clássico, que ainda é relevante nos dias de hoje.

Título no Brasil: Peter Pan

Título original: Peter and Wendy

Autor: J. M. Barrie

Tradução: Julia Romeu

Gênero: Clássico, Fantasia, Infantil, Aventura

Ano de lançamento: 1911

Editora: Zahar

Número de Páginas: 256

Foto: Fernanda Cavalcanti

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