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O Ano do Dilúvio, Margaret Atwood

“Depois de um tempo o cara não só rompe os limites como se esquece que eles existem, pensou Toby. E acaba fazendo o inimaginável”.

O mundo entra em uma pandemia e a humanidade é, aparentemente, destruída, no entanto, duas mulheres sobrevivem: Ren, que ficou presa no bordel onde trabalhava e Toby, que se encontra em um luxuoso spa. As duas então, tentam sobreviver e relembram seu passado na seita Jardineiros de Deus, onde o líder, Adão Um já previa a tragédia a anos.

O Ano do Dilúvio é o segundo livro da trilogia MaddAddão, de Margaret Atwood, composta por Oryx e Crake, O Ano do Dilúvio e MaddAddão, e se passa no mesmo universo do primeiro livro.

O Ano do Dilúvio tem inclusive, uma estrutura bem parecida com a de Oryx e Crake, já que ele também apresenta duas personagens que sobreviveram a pandemia e que acreditam serem as únicas no mundo e que relembram seus passados, dessa maneira, contando mais para o leitor como que tudo aconteceu. Além disso, os dois livros são cheios de conexões e descobertas que são difíceis de prever.

Na obra acompanhamos Ren, uma jovem que trabalhava em um bordel e que um pouco antes da pandemia se viu presa no local e, portanto, não se contaminou e Toby, que está presa em um spa, onde pode se alimentar e dormir. As duas mulheres têm até passados compartilhados, já que Ren, quando era criança fez parte da seita Jardineiros de Deus, onde Toby, na época já adulta, era uma peça importante da liderança local. Mas O Ano do Dilúvio volta mais ainda no tempo e descreve praticamente a vida toda dessas mulheres para explicar como elas chegaram aonde estão e porque elas se tornaram essas pessoas.

Por ser a segunda parte de uma trilogia, é natural que se tenha a impressão de que O Ano do Dilúvio é uma continuação direta de Oryx e Crake e que se no primeiro livro descobrimos, só no final, que uma pandemia tomou conta do mundo e matou, aparentemente, todo mundo menos O Homem das Neves/Jimmy e como que essa pandemia chegou, nesse, saberemos o que aconteceu depois dessa pandemia, ainda mais levando em conta o final de Oryx e Crake, onde o protagonista encontra mais humanos e entendemos que ele não é a única pessoa que restou na terra, mas O Ano do Dilúvio se passa na mesma época em que Oryx e Crake e também retrata o que aconteceu antes e durante a pandemia, mas o faz de outros pontos de vista.

Quando o livro começa, a pandemia acabou de começar, mas O Ano do Dilúvio tem uma série de flashbacks, que como no seu antecessor nos mostra o que foi acontecendo com o mundo antes da tragedia. Jimmy e Crake, os personagens de Oryx e Crake, são dois jovens de classe alta, que acompanharam tudo de outra maneira, enquanto Ren e Toby são mulheres pobres, que viram tudo diferente. O Ano do Dilúvio também apresenta uma série de outros personagens da Plebelandia – que são os bairros pobres desse universo – que entram e saem da vida de Ren e Toby. Esse livro, no entanto, avança um pouco mais no tempo da história.

O livro também traz a tona outras questões, como por exemplo, a seita da qual as duas mulheres fizeram parte, que acredita em uma mistura de ciência e religião, e que preza pelo meio ambiente, o poder das corporações, que praticamente mandam nesse universo, e da indústria farmacêutica, que faz testes com as pessoas e é, na realidade, responsável pela pandemia, a extinção de vários animais e a substituição deles por animais modificados, como leocarneiros, que são uma mistura de leões com carneiros e porcões, que são porcos gigantescos, com cérebros humanos. A trilogia MaddAddão, inclusive, é uma análise de Atwood em relação ao aquecimento global e de um futuro que pode ser terrível e que infelizmente, soa muito realista, uma vez que estamos mesmo enfrentando uma pandemia global.

O Ano do Dilúvio também se aproxima um pouco mais da infância de Jimmy e Crake, dois personagens importantes do primeiro livro e explica algumas das questões que ficaram abertas no volume anterior. Oryx e Crake é um livro bem mais misterioso, e automaticamente mais complicado de ser compreendido, porque o leitor é literalmente jogado nesse futuro distópico e vai descobrindo as coisas aos poucos, enquanto chegamos na leitura do segundo com uma série de informações pregressas e é mais fácil entender até os easter eggs que aparecem.

Em muitos sentidos, O Ano do Dilúvio é mais interessante que seu antecessor, talvez porque o leitor já está familiarizado com a história, talvez porque as duas protagonistas são mais instigantes e menos problemáticas do que Jimmy e Crake. As histórias de Ren e Toby também tem muito mais reviravoltas e é fácil simpatizar com elas.

A escrita de Atwood é incrível, como normalmente acontece nas obras da autora, por isso, a leitura é muito prazerosa e rápida, ainda que pesada e triste em vários momentos. Uma questão que não agrada tanto, no entanto, é o fato de que a história é cheia de coincidências, que certamente foram muita pensadas pela autora, mas que durante a leitura soam como não muito espontâneas, e que diminuem um pouco esse universo tão rico que Atwood criou, porque a impressão que se tem é que as vidas de todos os personagens está completamente interligadas, até em questões muito pequenas.

O Ano do Dilúvio é um livro mais interessante que seu antecessor, que já é muito bom, e prova o talento e a criatividade de Atwood.

Título no Brasil: O Ano do Dilúvio

Título original: The Year of the Flood

Autora: Margaret Atwood

Tradução: Márcia Frazão

Gênero: Ficção cientifica

Ano de lançamento: 2009

Editora: Rocco

Número de Páginas: 472

Foto: Fernanda Cavalcanti

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