livros, Quadrinhos

Watchmen, Alan Moore e Dave Gibbons

“As I see it, part of the art of being a hero is knowing when you dosen’t need to be one anymore”

“Do meu ponto de vista, uma parte da arte de ser um herói é saber quando você não precisa mais ser um”. – Traduzido livremente por Fernanda Cavalcanti

O ano é 1985 e em uma outra realidade, os Estados Unidos ganharam a guerra do Vietnã, o que levou Richard Nixon a se manter como presidente durante bastante tempo. O país, no entanto, contava com a ajuda de um grupo de vigilantes que defendiam a nação, atividade que atualmente está proibida.

Com a proibição, alguns dos vigilantes revelaram as suas identidades e passaram a lucrar com isso, outros se aposentaram e alguns ainda trabalham clandestinamente. O Comediante, que atualmente trabalha para o governo, é assassinado em Nova York e Rorschach, um herói que ainda atua na clandestinidade, passa a acreditar que existe uma conspiração para matar os antigos vigilantes, e passa a investigar o que vem acontecendo.

Ele procura os antigos companheiros, que a princípio, não acreditam nele, mas logo não podem ignorar o que veem na sua frente.

A ideia por trás de Watchmen é bem interessante, Alan Moore queria criar heróis que tivessem qualidades mais humanas e que como os humanos, tivessem defeitos, para tal, ele queria usar heróis da DC que já existiam, mas que não eram muito populares e poderiam ser reconhecidos pelos fãs, mas cujas novas personalidades não destoariam tanto assim. A editora gostou da ideia de Moore, mas achou que ele deveria trabalhar com personagens originais e o autor assim o fez.

Watchmen se passa em uma realidade alternativa, onde os Estados Unidos ganharam a guerra do Vietnã graças ao presidente Richard Nixon, o que permitiu que ele se reelegesse uma série de vezes. Apesar disso, os Estados Unidos estão em guerra fria com a União Soviética e a presença dos vigilantes ajuda o país nesse aspecto.

Os vigilantes são a maneira como Moore chama os seus heróis, e a grande maioria deles não tem nenhum poder, eles são só pessoas que estão dispostas a se fantasiarem e lutarem contra o crime, o grupo de vigilantes é conhecido como Minutemen e a história se divide em duas gerações: a dos anos 80, onde a atividade de vigilante já não é mais permitida e os heróis vivem escondidos ou se vangloriando de glorias passadas, e a dos anos 40, onde os heróis eram extremamente adorados. As duas gerações se conectam em alguns momentos, Edward Blake, o Comediante, faz parte das duas gerações de heróis, já o Coruja tem alter egos diferentes em cada geração, e Laurie Juspeczyk, a Espectral II, é filha de Sally Jupiter, a primeira Espectral.

O interessante em Watchmen é justamente a maneira com que a grapich novel trata o tema dos super-heróis, que aqui nunca ganham esse nome, se nos anos 40, eles eram figuras adoradas, nos anos 80, eles já parecem um tanto quanto inúteis, uma vez que já não existe mais nenhum super vilão mascarado para eles combaterem, eles então, passam a se focar em questões um pouco mais humanas. Moore diz que Watchmen é uma tentativa de imaginar como seriam os super-heróis vivendo e atuando no mundo real e seguindo esse princípio faz sentido que eles não sejam tão heroicos como os heróis normalmente são retratados, já que pessoas reais tem defeitos e cometem erros. Aqui os personagens são cheios de defeitos, como todos os humanos, mas alguns deles são de fato criminosos, o Comediante, por exemplo, é um personagem muito ambíguo, que atua como herói, mas é uma pessoa terrível na sua vida particular, ainda que Moore seja até gentil com o personagem em diversos momentos. Os vigilantes de Moore passam por problemas muito parecidos com a das pessoas normais, Sally vive um casamento em crise, Laurie se vê dividida entre o Dr. Manhattan e Daniel Dreiberg, o segundo Coruja, o próprio Daniel não consegue superar seu tempo como vigilante e guarda uma série de memorabilia.da época, enquanto Walter Kovacs, o Rorschach se comporta como um criminoso e continua agindo como vigilante mesmo depois da proibição.

Isso acontece porque esses vigilantes realmente são pessoas normais, eles não têm qualquer superpoder, com exceção do Dr. Manhattan, que foi atingindo por energia nuclear e se tornou uma espécie de deus e é a maior arma americana contra a União Soviética, mas até ele tem uma série de problemas de relacionamentos e se sente culpado por prejudicar seus amigos e suas amantes.

Em outro aspecto, Watchmen ainda se inclui na categoria do Noir, já que Rorschach está investigando o assassinato do Comediante e acredita em uma suposta conspiração para matar os antigos vigilantes. Essa é a trama principal de Watchmen, mas ao longo da graphic novel também acompanhamos como tramas paralelas as histórias de alguns dos heróis e como eles se relacionam.

Watchmen é dividido de duas maneiras: os quadrinhos, que contam a história principal, que passa em 1985 e alguns capítulos onde lemos histórias que complementam a trama principal e isso se dá através do mais variado tipo de material, como por exemplo, a autobiografia do primeiro Coruja, Hollis T. Mason, uma entrevista de Sally Jupiter a uma revista, o histórico psicológico de Rorschach, entre outras coisas. Moore se sai muito bem em conectar as duas coisas, e uma dá informações adicionais a outra e o leitor assim é capaz de desvendar o quebra cabeça que Moore criou, afinal, Watchmen além de ser uma história de heróis é também uma história de mistério.

Também é instigante que Watchmen traga à tona temas tão importantes e em muitas medidas até pesados, como depressão, violência contra a mulher, homofobia e estupro, assuntos que geralmente não estão presentes em histórias de heróis, porque é justamente isso que torna a história realista, ainda que ela se passe em um Estados Unidos alternativo e use de alguns elementos fantásticos, dentro do contexto das histórias de heróis, Watchmen é a mais realista delas, já que cria heróis que estão muito mais próximos do Noir do que das histórias do gênero.

A parte gráfica é de fato, impecável, os desenhos são coloridos e com cores fortes, o que chama muita atenção, o traço é um tanto quanto datado, mas isso não é um problema, é fácil acompanhar a história através dos quadrinhos, mesmo para quem tem dificuldade com esse tipo de obra, os anexos ajudam demais na compreensão.

Watchmen começa muito bem e prende o leitor rapidamente, o assassinato do Comediante e a trama com ares de suspense narrada por Rorschach, que inclusive tem uma aparência muito típica de filme Noir, é muito instigante e consegue misturar com perfeição o universo dos heróis e o gênero do suspense, a graphic novel vai ficando um pouco mais lenta com o tempo, especialmente quando se desvia totalmente dessa trama, mas não se torna chata ou parada em nenhum momento. O universo criado por Moore é de fato muito interessante e extremamente bem pensado.

Watchmen é uma história de heróis, mas trabalha o subgênero de uma maneira tão diferente e tão inovadora, que pode se encaixar em uma série de outros tipos de trabalho e agradar, inclusive, quem não é fã de quadrinhos ou de super-heróis.

Título no Brasil: Watchmen

Título original: Watchmen

Autor: Alan Moore

Ilustrador: Dave Gibbons

Gênero: Graphic Novel, Ficção Cientifica, Fantasia

Ano de lançamento: 1986

Editora: Panini

Número de Páginas: 216

Foto: Fernanda Cavalcanti

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