Adaptações, série

Clarice (1ª Temporada)

Logo após matar Buffalo Bill (Simon Northwood), Clarice Starling (Rebecca Breeds) deseja retornar ao seu trabalho como agente do FBI, mas o chefe da polícia, Paul Krendler (Michael Cudlitz) acredita que Clarice precisa frequentar uma psicóloga antes de voltar.

Clarice, no entanto, acaba pegando um caso que envolve outro serial killer e uma conspiração na indústria farmacêutica.

Clarice é uma espécie de continuação de O Silêncio dos Inocentes, livro de Thomas Harris.

A série Clarice não é uma adaptação direta de O Silêncio dos Inocentes, mas começa um pouco depois que o livro termina. Aqui Clarice já prendeu Buffalo Bill, o assassino que vinha sequestrando e matando mulheres, e ainda vive com o trauma disso, Clarice não se considera uma vítima, mas em seus pesadelos ela se vê constantemente presa no mesmo lugar que as vítimas de Bill.

A partir daí, a série parte para outras tramas, Clarice quer voltar ao seu trabalho na polícia, mas o chefe, que nos primeiros capítulos tem uma postura claramente machista, acha que Clarice precisa se tratar. De qualquer maneira, ela acaba ligada a outro caso envolvendo um serial killer, em uma equipe onde ela é a única mulher.

Ao mesmo tempo, acompanhamos a única vítima sobrevivente de Buffalo Bill, Catherine Martin (Marnee Carpenter), que depois do trauma, sofre de um distúrbio alimentar e não consegue mais se alimentar – Buffalo Bill sequestrava mulheres gordas, porque queria usar suas peles para fazer uma roupa para si próprio -, e a colega de quarto e companheira de trabalho de Clarice, Ardelia Mapp (Devyn A. Tyler), que é uma mulher negra trabalhando no FBI.

O Silêncio dos Inocentes, assim como os outros livros da série estrelada por Hannibal Lecter, é cheio de temas e traz à tona muitos assuntos diversos, o filme de 1991 não consegue abranger todos eles, porque tem menos tempo, mas a série pode fazer isso com mais calma e é isso que Clarice tenta fazer.

Não faria muito sentido fazer uma nova versão de O Silêncio dos Inocentes, já que o filme já é muito bom e não envelheceu mal, então o mais inteligente mesmo é apresentar uma nova trama com os mesmos personagens. Clarice então, já começa perdendo uma das figuras mais emblemáticas da saga: Hannibal Lecter. Isso pode parecer um problema, já que ele é um personagem muito importante e muito conhecido, mas Clarice é uma série que faz sentido para os dias de hoje, uma vez que tem como protagonista uma mulher, que tem uma posição de poder, ainda que seja sempre duvidada, no seu trabalho. Essa é uma premissa que também está presente no livro e no filme e que soava moderna na época, e que aqui é repetida de maneira correta.

Um dos temas de Clarice é, é claro, o machismo. Clarice trabalha em um ambiente quase que completamente masculino, a série ainda se passa nos anos 90, o que faz com que o local seja ainda mais difícil para as mulheres. Na equipe de Clarice, ela é a única mulher e no primeiro capítulo boa parte dos seus colegas não parece nem vagamente disposto a trabalhar com ela, por mais competente que ela se mostre ser, essa dinâmica muda um pouco com o tempo e a equipe passa a colaborar e acreditar em Clarice, mas o machismo segue na vida dela, o que é realista.

No outro espectro, temos Ardelia, que não só é mulher, como também é negra, ou seja, se encaixa em duas minorias sociais e sofre ainda mais preconceito que Clarice. Enquanto Clarice consegue provar sua habilidade, ainda que isso leve um tempo, Ardelia mostra sua competência com frequência, mas nunca consegue o cargo que quer. Existe uma subtrama sobre o racismo que Ardelia sofre, que não ganha muito destaque, mas que está presente.

O tema central da série, que envolve um outro serial killer, também tem aspectos de machismo, uma vez que ele mata só mulheres. Claro que a trama não fica só nisso e mais alguns aspectos vão sendo acrescentados ao longo da temporada, mas tudo é bem mal desenvolvido e não se compara a trama dos livros de Harris.

Buffalo Bill, o serial killer de O Silêncio dos Inocentes, também é bem importante aqui, já que não só ele é responsável pelo trauma de Clarice, sobre o qual ela não fala e que ela recusa a tratar, como também praticamente domina a vida de Catherine Martin, que embora tenha sobrevivido, não consegue seguir em frente. A ideia de transformar Catherine em uma mulher que sofre de distúrbios alimentares, já que o seu sequestro aconteceu porque ela era gorda é muito interessante, mas se perde ao longo da temporada.

Além disso, Clarice apresenta uma trama própria, que a princípio parece ser uma trama procedural, já que logo nos primeiros capítulos somos apresentados a vários casos diferentes, mas que aos poucos vão se conectando em maior ou menor medida. Essa trama não é exatamente criativa e peca em vários sentidos, a tentativa de dar uma reviravolta para ela então, soa bem absurda.

Clarice também tenta corrigir alguns dos erros, que na realidade são marcas do tempo em que o livro foi escrito, da obra original. A série tem personagens de várias raças e nacionalidades diferentes, o que é bem interessante e que abre o precedente para que se fala de vários tipos de discriminação e não só machismo e o preconceito contra negros.

O que Clarice mais se esforça para corrigir é a maneira com que o livro retrata as pessoas transgêneras. Buffalo Bill é transgênero e na obra original, ele mata mulheres e tira suas peles para fazer uma roupa que simula um corpo feminino para si mesmo, é importante lembrar que O Silêncio dos Inocentes foi publicado em 1988, quando se sabia muito pouco sobre o assunto, mas que nos dias de hoje, a ideia de que uma pessoa transgênera mata exclusivamente para que consiga se encaixar no seu gênero real pega mal e O Silêncio dos Inocentes recebe críticas em relação a isso com bastante frequência. A série, que é de 2021, tem como obrigação mudar essa perspectiva e para tal tem uma personagem transgênera, que sofre transfobia.

Outro ponto importante de Clarice e que merece destaque é que a série não força nenhum tipo de relação amorosa a Clarice e foca praticamente todo o seu tempo na carreira da personagem. Existe uma leve insinuação de uma atração entre Clarice e seu colega de trabalho, Tomas Esquivel (Lucca De Oliveira), que é também o único que acredita no potencial de Clarice desde que a conhece, mas isso nunca se desenrola durante a temporada, o que é bom, é muito mais interessante acompanhar a carreira de uma mulher extremamente competente do que suas relações amorosas.

Embora uma série que acompanha a personagem Clarice Starling pareça uma ideia interessante e que combina com os dias de hoje, Clarice não se sai tão bem. O primeiro episódio é muito bom e prende o telespectador bem rápido, mas a série vai perdendo a qualidade durante a temporada e se tornando chata, isso porque durante bastante tempo, os casos que Clarice investiga não parecem se relacionar e quando descobrimos que alguns deles de fato se conectam, tudo soa um pouco irreal.

Clarice tem uma boa produção, que se sai bem em capturar os anos 90, mas ainda consegue fazer com que a série aborde questões que dizem respeito aos dias de hoje e isso se reflete até no figurino dos personagens, que poderiam fazer sentido tanto na década em que a série se passa, quanto na atualidade. A fotografia opta por tons bem escuros, que de certa forma, combinam com o tema, mas que deixam a série ainda mais parada e pouco empolgante, algumas cenas são tão escuras que fica até difícil entender o que está acontecendo.

O elenco, de uma maneira geral, se sai bem. Rebecca Breeds e Devyn A. Tyler são as atrizes que mais chamam a atenção. Apesar disso a escalação de Breeds é um dos problemas da série, não por sua atuação, que é convincente e que nos remete a Clarice, mas porque é praticamente impossível desassociar Clarice de Jodie Foster, que interpretou a personagem em O Silêncio dos Inocentes, por isso, é natural a comparação entre a atuação das duas atrizes e claro que a personagem de Foster é bem mais marcante.

Clarice certamente soa como uma produção ideal para os anos 2020, época em que o público pede cada vez mais personagens femininas, com histórias próprias e que não envolvem romances ou suas relações com os homens de suas vidas, e Clarice de fato tenta tocar em assuntos relevantes, mas é tudo muito simples e a trama de mistério não se segura, fazendo com que a temporada vá aos poucos se tornando cansativa e sem muitos atrativos.

Título no Brasil: Clarice

Título original: Clarice

Elenco: Rebecca Breeds, Michael Cudlitz, Nick Sandow, Lucca De Oliveira, Kal Penn

Gênero: Drama, Policial, Suspense

Duração do episódio: 43min

Número de episódios: 13

Ano: 2021

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