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A Entidade, Frank De Felitta

“Como era possível ser médico e não ter sentimentos?”.

Carlotta Moran é uma mulher de trinta e dois anos, que cria seus três filhos Billy, Julia e Kim, e vive uma vida tranquila. Até que ela passa a sofrer uma série de ataques de alguém que ela não consegue ver e que a estupra de maneira violenta.

O que a princípio, parece um sonho muito vivido, passa a acontecer com frequência e Carlotta começa a ter certeza de que está sendo mesmo atacada, embora não consiga ver seu agressor, o problema é que ninguém acredita nela e até o psiquiatra que ela procura acredita que os ataques sejam uma manifestação do inconsciente de Carlotta.

Quando ela encontra uma dupla de estudantes de parapsicologia, eles resolvem que vão ajudá-la.

A Entidade já começa nos colocando no dia a dia de Carlotta, ela é uma mãe solo, que cria três filhos: Billy, de seu primeiro casamento, quando ainda era adolescente, e Julia e Kim, de um relacionamento com um homem mais velho. Os dois homens estão mortos, então, ela sustenta as crianças sozinha, com o dinheiro de seu trabalho e conta eventualmente com a ajuda de amigos e vizinhos. A vida organizada de Carlotta vira de cabeça para baixo quando ela é atacada dentro do seu quarto e estuprada, por alguém que ela não viu o rosto.

Carlotta se convence que o que aconteceu foi um sonho vivido, já que não só ela não viu ninguém no quarto, como também não encontra nenhuma passagem onde o homem poderia ter entrado e saído, mas os ataques continuam acontecendo e se tornam mais violentos. Billy, o filho adolescente de Carlotta passa a acreditar no que a mãe fala depois que a vê ser atacada. Apesar disso, ninguém mais parece acreditar em Carlotta.

Ela sai em busca de um psiquiatra e relata para ele que não só vem sendo atacada de maneira violenta por uma entidade invisível, como também escuta “ele” falar uma série de obscenidades para ela. O psiquiatra, que tem boas intenções e acaba se afeiçoando por Carlotta, acredita que os ataques são uma manifestação do inconsciente de Carlotta e sai em busca de pistas para isso no passado da mulher.

Enquanto isso, Carlotta vai aos poucos, se sentindo cada vez mais isolada e começa a se convencer de que está realmente maluca.

A Entidade tem basicamente três momentos diversos: o primeiro são os ataques a Carlotta, que são perturbadores e se enquadram no gênero do terror, embora ele ainda possa conversar com a realidade, uma vez que indiretamente fala sobre violência a mulher, já que Carlotta é atacada e estuprada de maneira violenta. O segundo são as incursões no passado de Carlotta, que então nos conta sobre sua vida em família e seus relacionamentos com os pais de seus filhos, esse aspecto, inclusive, acentua a ideia de que A Entidade quer falar sobre violência contra a mulher, isso porque o primeiro marido de Carlotta não só se casou com ela quando ela ainda era menor de idade, como também era violento e agressivo, ou seja, Carlotta é uma vítima constante de violência. A terceira parte acompanha o tratamento de Carlotta, que começa no psiquiatra, mas logo está nas mãos de dois estudantes de parapsicologia.

É claro que A Entidade tem alguns pontos interessantes, a ideia original da trama – que é supostamente inspirada em uma história real – é uma delas, afinal, existem muitas histórias de assombrações, mas poucas que exploram uma assombração que tem como intuito violentar uma mulher, uma espécie de súcubo masculino. A maneira com que Carlotta trata seus problemas também é, já que não só o psicólogo tem ideias bem modernas para a época em que o livro foi publicado, como a obra também não desencadeia para a ideia de contratar pessoas especializadas no sobrenatural, como costuma acontecer em livros desse subgênero, quem realmente ajuda Carlotta são parapsicólogos, que são pessoas que estudam aspectos científicos de manifestações sobrenaturais, então, embora o livro tenha uma série de momentos fantásticos, ele tem alguns aspectos realistas. A história pregressa de Carlotta, que a coloca como uma mulher que sempre foi vítima de machismo e de abusos e que segue sendo vítima de abusos não só pela entidade, mas também pelos médicos que não acreditam nela, o que de alguma maneira, justificaria uma possível manifestação do subconsciente dela, também é bem pensada.

Por outro lado, A Entidade peca em alguns aspectos, como por exemplo, nas cenas em que Carlotta é estuprada. Por si só, o tema já é bem sensível e o estupro como mecanismo de ficção é uma carta que deve ser usada com bastante cuidado, para não parecer que ele, por exemplo, justifica algumas ações das vítimas ou pior ainda, dos personagens masculinos que são próximos dessa vítima, como acontece em filmes de rape revenge ou, parecer uma espécie de fantasia do autor. Aqui a questão já começa arriscada, afinal, Frank De Felitta é um homem, que talvez não seja a pessoa ideal para escrever sobre estupro e dependendo de como ele escreve as cenas, pode cair facilmente na questão de parecer uma espécie de fantasia.

É importante destacar que o autor sempre deixa claro que Carlotta está sendo estuprada e que ela é uma vítima, isso nunca fica dubio, mas algumas cenas têm descrições demais, que soam até sensuais e, portanto, um pouco apelativas. O correto seria que elas soassem como momentos de terror, tanto para Carlotta, quanto para o leitor, porque elas de fato são. O caráter assustador desses momentos, no entanto, vai se perdendo com o tempo, dando a entender que Carlotta “se acostumou” com a situação, em um momento, ela chega inclusive a dizer que teve um orgasmo durante o estupro, o que soa absurdo, já que ela está completamente perturbada pela situação.

Outro problema de A Entidade é que o livro se alonga demais e isso acontece depois que Carlotta procura os parapsicólogos. É como se a obra começasse como uma história de assombração, em alguns aspectos bem apelativa, cuja ideia é assustar ou perturbar seus leitores, mas tomasse um rumo mais científico, onde acompanhamos a análise e a conclusão do caso de Carlotta. Claro que é importante dar um desfecho para a trama que foi proposta, mas a questão técnica aqui se torna grande demais em um livro que é, na teoria, de ficção.

Por isso, a leitura de A Entidade começa bem dinâmica e rápida, o leitor se prende logo na trama de Carlotta, mas vai ficando cada vez mais lenta com o tempo, já que do meio para o final tem pouco terror e é de se imaginar que alguém que resolveu ler A Entidade esteja interessado em ler uma obra de terror. Não é que A Entidade seja um livro ruim, ele é bem escrito e é bem criativo, mas poderia ser muito melhor.

Ainda que tenha alguns problemas, A Entidade pode ser considerado um livro moderno para a sua época e se destaca pela representação diferente da assombração, o que pode ser uma boa pedida para quem se interessa pelo tema.

Título no Brasil: A Entidade

Título original: The Entity

Autor: Frank De Felitta

Tradução: Luiz Horácio da Matta

Gênero: Terror, Suspense

Ano de lançamento: 1978

Editora: Nova Cultural

Número de Páginas: 478

Foto: Fernanda Cavalcanti

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