Adaptações, filmes

Filme: O Telefone Preto, 2021

O ano é 1978 e vários meninos desapareceram sem deixar vestígios no bairro onde Finney Shaw (Mason Thames) vive com seu pai (Jeremy Davies) e sua irmã mais nova, Gwen (Madeleine McGraw). Um boato de que os meninos estão sendo sequestrados por um homem – que fica conhecido como o Sequestrador (Ethan Hawke) – ronda a vizinhança.

Quando Finney é sequestrado, ele acorda em um quarto, a prova de som, que só tem uma cama e um telefone preto, que segundo o Sequestrador, não funciona. Mas logo o telefone começa a tocar e Finney passa a receber ligações dos outros meninos sequestrados, que lhe passam dicas para que Finney não tenha o mesmo fim que eles.

Enquanto isso, Gwen, que tem sonhos premonitórios, luta contra o tempo para encontrar o irmão.

O Telefone Preto é inspirado no conto de mesmo nome de Joe Hill, que faz parte da coletânea Fantasmas do século XX – recentemente republicado como O Telefone Preto e Outras Histórias -.

O Telefone Preto é um filme cujo tema principal é um ato de violência – o sequestro e a morte de garotos pré-adolescentes -, mas o cenário onde esses personagens vivem já é por si só muito violento, independentemente do surgimento do Sequestrador.

Finney, o protagonista do longa, tem treze anos e vive no subúrbio dos Estados Unidos, seu pai, Terrence é alcoólatra e violento, bate nos filhos sem qualquer remorso e torna a convivência na casa impossível, a mãe está morta e sabemos pouco sobre ela. O garoto também é vítima de bullying, vive sendo perseguido e apanha sem dó de outros garotos, nem Gwen escapa dos tapas dos meninos mais velhos e o único que consegue fazer isso parar é Robin (Miguel Cazarez Mora), amigo de Finney, que é sequestrado antes dele.

A violência acontece no momento do sequestro e durante o tempo em que Finney passa na casa do Sequestrador, mas ela já faz parte do cotidiano do protagonista. Finney vive em um pesadelo, que só se torna pior ao longo de O Telefone Preto, mas também é isso, em certa medida, que permite que Finney consiga passar pela situação do sequestro.

Um ponto interessante de O Telefone Preto é que o filme trabalha em muitas instâncias e ele não é um terror que se ampara só no sobrenatural, aliais, esse aspecto do filme é menos assustador do que o aspecto humano.

O grande terror de O Telefone Preto é um homem comum, um homem perturbado e muito perigoso, que usa algumas máscaras assustadoras, mas ainda um homem comum, o Sequestrador não é um monstro, não é um ser sobrenatural e não é uma criatura para a qual não se tem uma explicação de ordem natural. O Sequestrador é um serial killer de meninos cujo modus operandi até lembra o de alguns serial killers reais.

A parte sobrenatural de O Telefone Preto fica por conta do telefone, que recebe ligações de outras vítimas do Sequestrador, que subentendemos que estão mortas, e que só algumas pessoas podem escutar. Claro que a ideia de conversar com pessoas que já morreram soa assustadora em alguma medida, mas no longa, os garotos mortos ligam para Finnay para ajudá-lo a se salvar. Até o poder de Gwen, que tem sonhos premonitórios, que também é de ordem sobrenatural, serve para que ela consiga procurar seu irmão desaparecido e não é considerado assustador em nenhum momento do filme.

O Telefone Preto então, faz essa inversão, onde o que é humano é muito mais assustador e perigoso do que o que é sobrenatural.

O Telefone Preto é um filme bem-feito, com aspectos técnicos bem pensados e cuidadosos. O longa se passa nos anos 70 e os figurinos remetem a essa época, as roupas de Gwen são especialmente bonitas.

A trama, inspirada no conto de Joe Hill, também é bem interessante, a forma com que o longa cria esse ambiente que já é assustador muito antes da chegada do Sequestrador prova que a ideia é falar do mal humano, cometido por seres humanos, embora O Telefone Preto tenha muitos elementos sobrenaturais na sua história. A lógica é bem próxima de obras como A Coisa, de Stephen King – pai de Hill – e Deixa Ela Entrar, de John Ajvide Lindqvist, onde os protagonistas, também crianças, se deparam com a violência o tempo todo antes de encontrarem com o que é considerado o terror maior da trama.

O Telefone Preto é um filme de terror, que tem alguns jump scares pontuais, mas que aposta muito mais no sinistro e no perturbador. A trama é por si só inquietante, essa sensação aumenta porque nunca fica claro o que exatamente o Sequestrador faz com suas vítimas, embora muitas coisas sejam insinuadas. As máscaras – que mudam de acordo com o humor do Sequestrador – e o comportamento do Sequestrador são outros elementos que perturbam. A tensão também é uma constante no filme, cada minuto em que Finney passa no porão do Sequestrador parece, para a plateia, que será o momento final do garoto.

O longa ganha muita com suas atuações, inclusive a das crianças. Mason Thames está ótimo e sua atuação é bem convincente, Madeleine McGraw é um show à parte, a atriz é muito carismática e o fato de sua personagem ser uma das mais interessantes do filme a ajuda demais. O grande destaque é de Ethan Hawke, que não aparece tanto, mas construiu um sequestrador bizarro, perturbado e bem medonho, sua postura corporal e sua voz bem fina assustam bastante.

O Telefone Preto é um terror que explora muito mais o medo do real do que do sobrenatural e se sai bem fazendo essa inversão, o filme perturba, assusta e deixa a audiência tensa, exatamente como um filme de terror deve fazer.

Título no Brasil: O Telefone Preto

Título original: The Black Phone

Direção: Scott Derrickson

Gênero: Terror, Suspense

Ano: 2021

Duração: 1h 43min

Elenco: Mason Thames, Madeleine McGraw, Ethan Hawke, Jeremy Davies, Banks Repeta

Distribuidora: Universal Pictures

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