Adaptações, Musicais, Teatro

Teatro: Peter Pan, 2022

Wendy (Carol Costa) vive com os pais (Lia Canineu e Saulo Vasconcelos) e os irmãos John (Luke Lima) e Michael (Miguel Ryan) em Londres, e tudo que ela mais quer é não virar adulta.

Uma noite, Peter Pan (Mateus Ribeiro), um menino que nunca cresceu, aparece no quarto dos irmãos Darling e lhes conta sobre a Terra do Nunca, onde as crianças permanecem crianças para sempre e convence os três a se mudarem para lá.

Na Terra do Nunca, eles conhecem os meninos perdidos e se encantam com todas as maravilhas que o lugar proporciona, mas também precisam enfrentar os piratas comandados pelo Capitão Gancho (também interpretado por Saulo Vasconcelos, como manda a tradição de Peter Pan) e o que a princípio, parecia uma maravilha vai se deteriorando quando Wendy nota que Peter não tem qualquer intenção de se tornar adulto nunca.

Essa montagem de Peter Pan é inspirada na peça da Broadway, que estreou em 1979 e que já ganhou outras adaptações, como Peter Pan Live!, um especial para a televisão americana. No entanto, a peça é bem fiel a obra de J. M. Barrie.

O tom do musical é um pouco mais adulto, diferente, por exemplo, do desenho da Disney, que é voltado para o público infantil, Peter Pan parece ter a intenção de agradar tanto o público adulto – especialmente quando traz alguns questionamentos mais complexos -, quanto o público infantil, já que é cheio de piadinhas.

Quem leu o livro, que por incrível que pareça, não é tão infantil, vai sair satisfeito do teatro, já que a trama é muito parecida e tem poucas alterações. Peter Pan é um livro infantil, com muitas influências dos contos de fadas, ele tem questões muito fantásticas, como a própria existência de um menino que não cresce, um lugar onde um grupo de crianças vive sozinhas, uma série de criaturas mágicas, como fadas e sereias e esse aspecto fantástico, inclusive, se espalha para momentos da história que se passam fora da Terra do Nunca, como pode ser visto no fato dos irmãos Darling terem como babá uma cachorra, o que parece um elemento saído de uma fábula, mas ele também tem alguns elementos bem adultos, que falam muito mais com essa parcela da população do que com as crianças, que se interessam bem mais pelo lado fantástico.

O fato das crianças que aparecem na trama não quererem se tornar adultas é uma dessas questões, porque é natural que as crianças que estão tendo acesso a história também não queiram se tornar adultas e talvez nem pensem sobre isso de maneira racional, mas os adultos que assistem à peça compreendem que esse crescimento é inevitável, assim como a própria Wendy percebe depois de um tempo na Terra do Nunca. O comentário vai muito mais além do que só explorar a ideia de que viver aquela aventura na Terra do Nunca é muito mais divertido do que crescer e ter que trabalhar como o Sr. Darling ou cuidar dos filhos como a Sra. Darling. A trama de Barrie é na realidade, uma história sobre como é difícil se tornar adulto e passar a ter responsabilidades, mesmo isso sendo inevitável, todas as crianças que aparecem na história vão crescer, menos Peter Pan, que continuará encontrando outras crianças em uma espécie de ciclo sem fim, e que para sempre vai representar essa vontade de nunca crescer.

Por outro lado, Peter Pan traz algumas modernizações a sua trama, uma delas é apenas diferente da tradição do teatro, onde o Peter Pan geralmente é interpretado por uma mulher, aqui é interpretado por um homem. Existe também uma espécie de inclusão da população LGBTQIA+, já que Smee (Pedro Navarro), o ajudante do Capitão Gancho, aqui é um personagem extremamente feminino, que fala gírias gays e drags, parece estar apaixonado pelo Gancho e até faz um vogue em determinado momento. Nada é dito com todas as letras e o personagem serve, muitas vezes, como alívio cômico, ainda que ele não esteja lá apenas para fazer piada com a sexualidade, mas ele é divertido e funciona.

O elemento que é sempre um problema para as montagens atuais de Peter Pan é a questão dos indígenas, que tem ares bem preconceituosos no livro, em função da época em que ele foi escrito, e que foi repetido no filme da Disney e em outras adaptações de Peter Pan. As versões mais modernas tentam ser menos racistas, mas é difícil com o material que se têm em mãos, já que a personagem Tiger Lily (Giu Mallen) é importante e não pode – e nem deve – ser cortada da peça, as cenas com os indígenas são sempre um pouco incomodas para os olhos atuais, na maioria das montagens e adaptações.

É difícil apontar quem é o protagonista de Peter Pan, já que a peça tem o nome de Peter, mas o personagem é praticamente um mistério e não existe nenhuma explicação para quem ele é realmente ou porque ele não cresce para além da história que ele repete que fugiu de casa quando era recém-nascido depois de ouvir as expectativas que seus pais tinham para o futuro dele, e porque acompanhamos boa parte da trama do ponto de vista de Wendy: conhecemos Peter quando ela o conhece, chegamos a terra do nunca quando ela chega e saímos de lá quando ela sai. Mas é fácil dizer que Wendy e Peter são os dois personagens mais importantes dessa história.

Em muitos aspectos, a relação dos dois pode até ser interpretada como um romance, uma espécie de primeiro amor, mas ela é esquisita. A primeira coisa que é preciso lembrar sobre Peter Pan é que boa parte dos personagens são crianças – embora no teatro eles sejam interpretados por adultos, com exceção de Michael, que no livro é uma criança de um ano e pouco de idade -, Wendy e Peter são os dois mais velhos, mas não tem mais de doze anos, por isso, parece natural que eles estejam vivendo seu primeiro amor, Wendy se apaixona por Peter assim que o conhece e até lhe oferece um beijo, que ele não sabe o que é, porque é uma criança, habitando um mundo composto apenas por outros meninos.

Em alguns momentos parece que Peter corresponde Wendy, mas em outros ele parece nem perceber que a menina gosta dele, quando ele pede que ela vá viver na Terra do Nunca com ele e os meninos perdidos, ele pede que ela seja a mãe deles, e quando Wendy passa a viver lá, ela se comporta como uma mãe, enquanto Peter se comporta como uma criança, por mais que ela tente tratá-lo como um adulto e que diga várias vezes que ele e o “papai” dos meninos perdidos. Peter claramente não se sente um “papai”, ele se sente como um dos meninos perdidos e vê Wendy como uma mãe.

Toda essa questão parece ser um comentário de Barrie sobre uma falácia que é repetida a muito tempo: de que as meninas amadurecem antes dos meninos. Hoje em dia, sabemos que isso não é verdade e que as meninas são forçadas a amadurecerem primeiro por uma série de fatores, mas na época em que o livro foi escrito, isso provavelmente parecia verdade, tanto que Wendy trabalha como uma escrava costurando, cozinhando, limpando, dando remédio e colocando todos esses meninos para dormir e não acha isso ruim em momento algum, como se ela tivesse a certeza de que essa é a obrigação dela e de que nenhum dos meninos precisa sequer ajuda-la, porque era assim que as mulheres eram criadas quando a peça foi escrita.

O que faz Wendy desistir da Terra do Nunca é a percepção de que Peter não vai crescer, mas ela vai e que em algum momento, ela vai ter que deixar a Terra do Nunca para trás e para sempre, como todos nós precisamos fazer com as nossas infâncias, o que faz da história de “amor” entre Peter e Wendy um tanto quanto trágica e impossível de se concretizar, ainda que a metáfora seja muito bonita e que tudo tenha esse ar de conto de fadas e de fantasia que distrai a audiência das mensagens até duras que Barrie passa.

Dito isso, a montagem de Peter Pan é extremamente bem-feita, não só fiel ao musical da Broadway, como também a história de Barrie, com algumas modernizações que se fazem necessárias. A peça traz para o palco toda essa magia que circunda a história de Pan, os personagens voam em cena, os cenários são lindos, e é muito fácil embarcar nessa viagem junto com os irmãos Darling.

As músicas complementam o espetáculo, que não é tedioso e nem parado. Ele é longo, mas a plateia fica presa o tempo todo, Peter Pan é uma boa pedida para as crianças e para os adultos. É impossível não se encantar com o que está no palco.

O espetáculo ganha muito com as coreografias, que são maravilhosas e claro, com o elenco, que também está muito bem. Os destaques são de Matheus Ribeiro, Carol Costa, Saulo Vasconcelos e Pedro Navarro – que é ótimo -, mas todo o elenco se sai muito bem e parece muito entrosado. Como não podia deixar de ser, Peter Pan é um mergulho nesse mundo encantado e atemporal criado por Barrie, infelizmente, como Wendy não podemos ficar para sempre na Terra do Nunca, e temos que nos contentar apenas com as quase três horas de peça.

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