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44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: O Problema de Nascer, 2020

Georg (Dominik Warta) é um homem solitário que vive só com sua filha robô, Elli (Lena Watson). Depois de um tempo, no entanto, fica claro que a relação de Georg e Elli é mais problemática e que na realidade, os dois mantém um estranho relacionamento sexual.

Quando Elli foge de casa, ela é encontrada pela Sra. Schikowa (Ingrid Burkhard) e transformada em Emil, o irmão da Sra. Schikowa que morreu quando criança.

Georg

Quando O Problema de Nascer começa acompanhamos Georg e sua filha Robô, Elli. A menina é montada por ele e por isso, tem a aparência e a personalidade que ele deseja.

A princípio, a relação entre Georg e Ellie parece uma relação de pai e filha, mas ao longo do tempo, o filme vai dando a entender que na realidade George é um pedófilo e que ele mantém relações sexuais com sua filha robô. Ellie foi criada de acordo com o que Georg desejava, e por isso, vê tudo aquilo como natural.

As cenas que envolvem esses personagens são bem perturbadoras. Não existe nenhuma cena explicita, mas ao longo do tempo, fica mais do que claro que está acontecendo ali. No entanto, o filme discute qual é a culpa de Georg nisso tudo, sabemos que ele é um pedófilo, mas ele não machuca nenhuma criança real. Por outro lado, Ellie tem a aparência e a personalidade de uma criança real, e o telespectador se pergunta se o que Georg está fazendo é justo, mesmo que seja com uma robô.

Uma vez que dentro da trama do filme, é possível e aparentemente normal ter robôs dentro de casa e que o longa apresenta outras tecnológicas que ainda não existem, é possível entender que a história se passa em algum futuro relativamente próximo, o que faz o telespectador se perguntar se Ellie é, talvez, a maneira que a sociedade encontrou para “curar” a pedófilia.

Sra. Schikowa

Na segunda parte do filme, Ellie foge de casa e acaba encontrando a Sra. Schikowa, que a leva para viver com ela, onde ela tem uma utilidade completamente diferente da que tinha na casa de Georg.

Ellie é transformada em Emil, o irmão mais nova da Sra. Schikowa, que morreu depois que os dois tiveram uma briga. Dessa vez, Emil tem a utilidade de primeiro, diminuir a culpa que a mulher sente por ter brigado com o irmão e segundo, substituir o irmão perdido.

O Problema de Nascer então, discute o luto e a dificuldade de aceitar que as pessoas que amamos morrem. É obvio que a robô é usada e de certa maneira, vista como objeto nas duas situações, mas o longa tenta comparar a vida dela com Georg e a vida dela com a Sra. Schikowa e assim, apresenta uma situação um pouco complicada.

Ellie/Emil

Acompanhamos Elli enquanto ela vive com Georg e mais tarde, quando ela se torna Emil e vive com a Sra. Schikowa, mas as duas tramas não se relacionam para além disso. A impressão que se tem é que estamos apenas acompanhando aquela vida, mesmo que nada muito grande aconteça com ela, o longa até traz algumas questões à tona, mas não a desenvolve, dando a entender que talvez a ideia seja só perturbar e provocar, o que de fato, acontece.

O resultado é que o telespectador é apresentado a essa trama, que sai do nada e que termina no nada, já que não mostra exatamente ao que veio.

Os assuntos que O Problema de Nascer quer tratar são importantes e polêmicos, mas o filme não arrisca e tudo fica meio plano.

Aspectos técnicos

O Problema de Nascer é um filme polêmico em função da sua primeira parte, porque o longa fala sobre pedófilia, mesmo que não o faça abertamente, mais que isso, ele não parece muito preocupado em retratar Georg como um criminoso e mostra a relação entre ele e Ellie como algo natural e que faz parte da realidade retratada no filme.

É esse olhar pacifico que reina durante todo O Problema de Nascer, como se a câmera apenas seguisse seus personagens, sem querer julga-los ou dar opinião. O longa não entra no assunto da pedófilia e nem do luto, tudo fica meio perdido.

O Problema de Nascer tem algumas cenas explicitas, que mostram por exemplo, Ellie nua. Segunda a diretora Sandra Wollner, essas cenas foram feitas em CGI, além disso, Lena Watson é apenas um pseudônimo da jovem atriz que interpreta Ellie/Emil e que no filme, usa uma máscara e uma peruca para que ela não possa ser reconhecida.

Watson, aliais, está muito bem no papel e consegue transmitir todos os sentimentos de sua personagem, em uma atuação bem madura.

É interessante também a maneira com o que o filme apresenta essa sociedade, quase como uma distopia, onde tudo é muito parecido com os dias de hoje. O telespectador entende que a trama se passa em um futuro próximo, porque existem robôs que convivem com as pessoas, mas o resto da realidade não é tão tecnológica quanto se espera de um mundo futurístico. Essa escolha aproxima a plateia do filme, o que é interessante, quase como se O Problema de Nascer falasse sobre o futuro, ao mesmo tempo que fala sobre os dias de hoje.

O grande problema do filme é que ele não consegue ligar as suas tramas – e na verdade, nem parece se importar com isso – mesmo tendo muitos assuntos para serem discutidos, o que passa a impressão de que o filme quer apenas chocar e perturbar, mas não se interessa muito em fazer o telespectador refletir.

O Problema de Nascer faz parte da programação da 44ª Mostra Internacional de Cinema, que acontece entre os dias 22 de outubro a 4 de novembro. O evento traz 198 filmes, de 78 países diferentes.

Devido a pandemia de Covid-19, em 2020, a Mostra Internacional de Cinema vai ser apresentada de maneira digital, através da plataforma Mostra Play, com algumas sessões no Petra Belas Artes Drive-in. O filme de abertura, Nova Ordem, do México, vai ser exibido no Petra Belas Arts no dia 22 de outubro, as 19h00. As 00h01, o filme estará disponível na plataforma Mostra Play por 24 horas. Os outros filmes da programação estarão disponíveis a partir das 20h00, do dia 22.

Os filmes que fazem parte da programação poderão ser assistidos em qualquer horário, mediante pagamento. Para mais informações, acesse: https://44.mostra.org/.

Título no Brasil: O Problema de Nascer

Título original: The Trouble with Being Born

Direção: Sandra Wollner

Gênero: Ficção Cientifica, Drama

Nacionalidade: Áustria, Alemanha

Ano: 2020

Duração: 1h34

Elenco: Lena Watson, Dominik Warta, Ingrid Burkhard, Jana McKinnon, Simon Hatzl

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