Adaptações, filmes

Filme: O Cavaleiro Verde, 2021

Sir Gawain (Dev Patel) é sobrinho de Rei Arthur (Sean Harris) e espera o momento para mostrar o seu valor. Quando um misterioso Cavaleiro Verde (Ralph Ineson) aparece em Camelot e desafia qualquer um na corte a lhe ferir, desde que no natal seguinte, essa mesma pessoa aceite ser ferida pelo Cavaleiro Verde da mesma maneira, Gawain se oferece para a luta.

Durante o embate, o Cavaleiro Verde se ajoelha e Gawain lhe decepa a cabeça, mas minutos depois, o homem se levanta, coloca a cabeça no lugar e parte dizendo que espera Gawain dali a um ano.

Gawain então, passa a ser consumido pela perspectiva de ter a cabeça decepada e no natal seguinte, se encaminha para a sua missão ainda em dúvida.

O Cavaleiro Verde é uma adaptação das lendas Arthurianas.

Como acontece com frequência em obras que exploram as lendas Arthurianas, O Cavaleiro Verde tem uma série de adaptações, e não existe nenhum problema nisso, uma vez que todas as histórias do Rei Arthur são lendas e não existe uma versão oficial, portanto, qualquer nova adaptação e versão é bem-vinda.

O Cavaleiro Verde é até relativamente fiel as versões mais famosas da lenda, uma vez que Gawain é sobrinho de Arthur e filho de uma feiticeira (Sarita Choudhury), da qual não sabemos o nome, mas que podemos imaginar ser Morgana – ou até mesmo Morgause, que em algumas versões é descendente dos povos de Avalon, portanto, poderia ser uma feiticeira e que também é parente de Arthur -, e que ele é quem enfrenta o Cavaleiro Verde. O filme, no entanto, dá uma encurtada em outras partes da história do personagem, que aqui não parecem tão importantes.

Gawain é de fato um dos cavaleiros da Távola Redonda e é um dos nomes que é lembrado quando se pensa na história. Ele também é reconhecido como um dos principais exemplos de cavalheirismo e cortesia dentro das lendas do Rei Arthur, embora seu papel geralmente seja de coadjuvante para cavaleiros um pouco mais famosos, como Lancelot – considerado o melhor cavaleiro da corte – e Percival – que ficou responsável por guardar o Santo Graal -. O Cavaleiro Verde por sua vez, quer contar a história de Gawain, ou pelo menos, uma parte dela.

Só por isso, O Cavaleiro Verde já traz uma inovação, já que embora Gawain apareça em muitas lendas, ele sempre tem um papel pequeno e que não existe praticamente nem uma obra audiovisual sobre ele.

Quando O Cavaleiro Verde começa, conhecemos um Gawain que em nada parece com um cavaleiro da Távola Redonda, ele é acordado em um bordel, por sua amante, Essel (Alicia Vikander) e embora frequente a corte de Arthur, não recebeu nenhuma missão e não sabe exatamente qual é o seu caminho. É com esse questionamento em mente que ele aceita o desafio do Cavaleiro Verde, sem imaginar as consequências que ele vai ter que enfrentar depois.

Depois que ele “derrota” o Cavaleiro Verde, Gawain se torna famoso em Camelot, mas passa a viver uma vida miserável, sempre pensando no seu fim iminente no ano que vem. Gawain então, começa a crescer, ele vai se tornando adulto enquanto remoí a missão em que ele mesmo se colocou.

Sem poder escapar do encontro com o Cavaleiro Verde, ele parte para a sua missão sem quaisquer perspectivas de voltar e é esse caminho que o telespectador acompanha, onde ele encontra ladrões, criaturas magicas, fantasmas e gigantes. É quase como se ele tivesse várias missões em apenas uma.

Para cada pessoa que ele encontra, Gawain também encontra um desafio, que ele precisa cumprir ou uma ajuda que ele precisa entregar e isso vai deixando ele cada vez mais próximo de se tornar o cavaleiro que ele quer ser e que poderá, finalmente, se sentar ao redor da Távola de seu tio.  

Nesse sentido, O Cavaleiro Verde é muito parecido com as lendas mais tradicionais, já que elas costumam narrar uma série de missões dos cavaleiros, o filme tem o mesmo clima de cavalaria que, geralmente, atrai os fãs das histórias e por isso, pode ser considerada uma boa adaptação.

Mas O Cavaleiro Verde não é um filme que dá preferência a cenas de lutas ou violência, o que pode tornar ele lento e desagradar uma grande parte do público, que quando pensa em Rei Arthur, espera ver um épico medieval no sentido mais clássico da palavra. O Cavaleiro Verde é um filme lento, porque não acompanha apenas a missão de Gawain, mas mostra o protagonista se tornando o cavaleiro sobre o qual serão escritas lendas e histórias. Muito mais do que uma missão física, o longa retrata uma missão interna, onde um jovem se torna um homem e renuncia a sua vida para cumprir uma promessa da qual muito possivelmente não sairá vivo.

O Cavaleiro Verde ainda tem uma boa produção, o longa é esteticamente lindo, e usa bastante de cores fortes, como vermelho e amarelo, nos seus cenários e figurinos, é impossível desviar os olhos, porque a fotografia também é muito bonita. A cor verde é usada quase que unicamente pelo Cavaleiro Verde, o que claro, faz sentido.

O longa retrata a idade média, mas ele ainda soa moderno, porque faz uma interpretação um pouco mais atual da época, ele não é um medieval extremamente clássico – ou pelo menos a ideia que a gente tem do que é medieval -, e por isso se destaca entre outros filmes do gênero. O Cavaleiro Verde também se destaca porque tem figurinos masculinos bem mais elaborados que os femininos, o longa tem poucas personagens femininas, e as que são mais ricas e poderiam ter figurinos mais extravagantes, como a rainha (Kate Dickie) – que também não tem o nome mencionado nunca – e a senhora da casa (também interpretada por Alicia Vikander) onde Gawain se hospeda usam roupas que parecem mais requintadas, mas ainda são simples e escuras. As roupas de Gawain, que usa muito amarelo, e Arthur, no entanto, chamam bastante atenção.

Outro ponto alto do filme é o elenco. O Cavaleiro Verde usa de blind casting, uma pratica que ignora raças, etnias, cor da pele, formato do corpo e algumas vezes, até o gênero. Geralmente as adaptações de lendas Arthurianas escalam atores brancos para os papeis, porque na idade média, a Europa era majoritariamente branca, mas O Cavaleiro Verde escala atores de outras etnias, e tem como protagonista Dev Patel, que é inglês, mas tem ascendência indiana, o mesmo acontece com Sarita Choudhury, que interpreta a mãe de Gawain. A ideia não só dá uma nova feição para esses personagens clássicos e uma chance para que atores com outras etnias interpretem personagens que antes pareciam muito distantes, como também torna o filme ainda mais diferente e interessante.

O Cavaleiro Verde tem ótimas atuações, como as de Sarita Choudhury, Sean Harris e Alicia Vikander, que interpreta duas personagens bem diferentes, mas é claro que quem rouba a cena mesmo é Dev Patel, que é quem leva o filme todo nas costas e está ótimo no papel de Gawain.

Talvez O Cavaleiro Verde não agrade boa parte do público, porque é um filme um pouco mais lento, mas certamente vai cair no gosto de quem está disposto a mergulhar em uma trama com uma linguagem diferente. Ele também tem grandes chances de agradar os fãs das lendas Arthurianas, já que ele não só tem o mesmo clima de algumas das histórias mais clássicas como também dá voz a um personagem que geralmente aparece como coadjuvante.

O Cavaleiro Verde nada de braçada em um mar de adaptações de lendas Arthurianas e consegue trazer para a tela o mesmo clima de algumas das histórias mais antigas e tradicionais, ao mesmo tempo, que apresenta aspectos técnicos impecáveis.

Título no Brasil: O Cavaleiro Verde

Título original: The Green Knight

Direção: David Lowery

Gênero: Fantasia, Drama, Romance

Nacionalidade: EUA, Irlanda

Ano: 2021

Duração: 2h 10min

Elenco: Dev Patel, Alicia Vikander, Joel Edgerton, Sarita Choudhury, Sean Harris

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